Trombone: Blog de Crítica de Arte em Porto Alegre

Zeca Baleiro F. C.

4 de outubro de 2015
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Quando mediei uma conversa entre Zeca Baleiro e Vitor Ramil em 2011, comecei a conversa dizendo que eu me sentia um árbitro do Barcelona e Real Madrid da canção brasileira dos anos 90, meu objetivo era não atrapalhar o jogo. O Zeca não deixou a bola cair e me provocou curiosamente: “mas quem é o Barcelona?”

É claro que eu tinha pensado sobre isso e o Barcelona era ele, enquanto o Real Madrid era o Vitor. Dá pra desenvolver mais a comparação dos dois, mas eu pensava especificamente nos gestos de cada um como artista, em suas dicções. Dentro do campo de entender a canção como trabalho, o primeiro arrisca-se em prol do espetáculo, é exuberante em seu jogo, perde eventualmente, mas encanta, enquanto o segundo tem confiança num certo modo de ser que antecede aquela partida em especial, tem um jogo eficiente, raramente perde, de gesto impecável, mas geralmente pouco encantador. (Vale dizer que, em geral, torço pro Real, mas prefiro ver o Barça jogando.)

Recupero a história para saudar o show em que Zeca Baleiro canta Zé Ramalho e que tive a oportunidade de ver ontem à noite, no teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre. Seria possível falar sobre vários méritos do projeto e do show, como a versatilidade muito competente da banda, os arranjos coletivos e criativos, os interessantes recursos de luzes e vídeos, a escolha muito feliz do repertório, que dá uma dimensão espantosa do tamanho da obra de Zé Ramalho etc., mas quero me focar em três.

Primeiro: fico impressionado com a quantidade de projetos que o Zeca Baleiro desenvolve ou se envolve. O mais interessante pra mim é que ele mora em São Paulo, mas não se “apaulistanou” – ser paulistano não é um defeito, só em aproximadamente 80% dos casos. Melhor dizendo, tenho a impressão de que ele sabe que é estrangeiro e comporta-se como um amável contrabandista de capital simbólico, iluminando artistas e aspectos da cultura nordestina a partir da máquina cancional estabelecida na pauliceia. Desculpem-me os integralistas, mas acho não se integrar um grande mérito. Nesse sentido, conversa antes com artistas de fora dessa cena, Zelia Duncan, Tom Zé, Ednardo, Fagner, entre outros, do que busca um lugar. Em síntese, acho que o Baleiro saber que é “o outro” e é a partir daí que organiza suas forças – só pra dar contraste na comparação, porque desenvolver isso renderia outro texto, comparem com a maneira como Lenine se carioquizou – se acariocar, veja bem, não é um defeito, é claro, só em aproximadamente 80% dos casos.

Segundo: desta vez a obra iluminada foi a de Zé Ramalho, que o grande público conhece do Grande Encontro ou do Rei do Gado, mas que é muito mais do que isso. O show foi capaz de sublinhar o quanto o compositor é uma das dicções mais marginais nos complicados anos 70. Não é Ave Sangria, mas também não tem a loucura límpida de Alceu Valença e Geraldo Azevedo. Numa combinação muito peculiar de profecia, mistério e engajamento, combinação que o próprio show ajuda a desvelar, tem algo de arranhado na poesia de Zé Ramalho e isso casou bem com o trabalho do Zeca. Ambos tencionam a relação com o público, o mercado, o “bom gosto” – no show, por exemplo, o boa noite só veio lá adiante, para desespero de parte da consumista plateia, não obstante a simpatia do intérprete todo o tempo.

Terceiro: não sendo acadêmico, e tendo certa aversão (que até considero meio boba) em relação à academia, Zeca Baleiro interfere como artista-agente-crítico no panorama da canção. Nesse sentido, age muito mais decisivamente do que a maioria dos acadêmicos que estuda canção popular. Quando grava o artista x em seus selos, faz show do artista y, comenta o artista z, está ampliando o horizonte da canção e em boa medida dizendo: você deveria ouvir fulano, não dá pra esquecer ciclano. Esse lado não propriamente artístico do artista é cada vez mais raro num universo dominado por grana e interesses correlatos.

A única coisa a lamentar, em certo sentido, é que o projeto caminha pro seu fim, sendo o show de ontem o antepenúltimo show da turnê. A alegria desse fim é saber que agora vêm gestos novos por aí, novos dribles, novas táticas. Que jogo vai nos propor o Zeca Baleiro F. C.? Vai dar certo? O que é dar certo no campo da arte? Numa passagem do show, o Zeca imaginou a cena dos empresários de gravadoras ouvindo “Vida de gado” pela primeira vez e não entendendo nada. Zé Ramalho deu errado ou deu certo? Cá do meu lugar na arquibancada, deu certo, mesmo que tenha passado por certo ostracismo na segunda metade dos anos 80, mas que seja desconhecido por parte importante do público de hoje. Um viva a esses artistas que sabem que dar certo é também dar errado! Viva!

https://www.youtube.com/watch?v=XFodV7GVJBQ


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A verdade sobre o caso Harry Quebert

6 de julho de 2014
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Alguns professores e críticos não se interessam por best sellers, ao considerarem esses livros demasiado concessivos no jogo de representar as questões mais interessantes da experiência e elaborar, concomitantemente, uma forma estética autônoma e interessante. Diferentemente, sempre me interessou entender como um livro é capaz de vender cem mil exemplares e outro é incapaz de vender mil. Como um livro encontra o ponto médio do horizonte de leitura do seu tempo? Essa me parece uma questão interessantíssima! Indústria do livro à parte, se é que seja possível apartá-la, estou convencido de que nem todo marketing do mundo faria Grande sertão: veredas – meu livro preferido de todos os tempos – vender centenas de milhares de exemplares se lançado hoje. Também não acho que seja fácil escrever um best seller, mesmo que digam haver uma fórmula para isso. Se assim o fosse, todos os escritores o fariam para lograr de alguma tranquilidade financeira em seu ofício. Que mistérios guarda uma literatura acessível?

Com essa inquietação, encarei as quase seiscentas páginas de A verdade sobre o caso Harry Quebert, livro aclamado do suíço Joël Dicker, um dos convidados da FLIP deste ano. Como esperado, não me impressionei com a capacidade do romancista em construir personagens – muitos deles se parecem e, em alguns trechos, até mesmo ecoam frases e pensamentos uns dos outros – e nem me convenci com a linha geral do enredo – as muitas guinadas nas últimas cem páginas do livro estremecem um pouco seu poder de verdade -. mas é notável a maneira como o ritmo da história é mantido e, com ele, o autor consegue manter a atenção do leitor e a vontade de seguir descobrindo o que irá acontecer.

Também é preciso realçar a maneira como a estrutura do livro consegue manter um equilíbrio formal bastante sofisticado. Sem antecipar o fim (e a pergunta da promoção), o livro apresenta em primeiro plano um jovem escritor, Marcus Goldman, em busca de uma história para seu novo livro. Em segundo plano, seu mentor no mundo literário, Harry Quebert, se vê envolvido no homicídio de uma garota de quinze anos acontecido três décadas antes. Completam a forma, a suposta obra-prima lançada pelo mentor, As origens do mal, o livro que está sendo escrito por Marcus – que é e não é o livro que o leitor tem em mãos -, além de alguns excertos de ensinamentos de Quebert ao jovem escritor. Todas essas estruturas correm em paralelo, enquanto acompanhamos o desdobramento da investigação e da escritura, em forma bastante cuidadosa.

Por fim, ainda empolga a maneira como o autor desvela algumas dinâmicas nefastas das altas esferas do mundo editorial, desde a pressão do editor para que o livro seja escrito o mais rápido possível até uma estratégia de marketing que passa pela polêmica e pelo sensacionalismo. Como também decepciona a utilização de uma linguagem muitas vezes trivial e imprecisa, como se bastasse uma apreensão aproximada do real. E talvez baste…

Acho que deu pra perceber que não consegui descobrir as origens da boa literatura pop. A sensação geral foi de bastante divertimento, embora algumas vezes eu tenha me aborrecida com uma ou outra fragilidade formal e, noutras, tenha sido convocado pelas leituras mais exigentes do meu trabalho. Mas vale notar que, durante as últimas semanas, enquanto descansava, nas últimas horas do dia, vinha uma voz cá de dentro a me dizer com doçura: “vamos lá, por alguns páginas, ver quem matou a menina?”

PERGUNTA DA PROMOÇÃO (a melhor resposta até sexta-feira, 11/07, ganhará um exemplar, a ser enviado pela Editora Intrínseca): Marcus Goldman, o principal narrador do livro, inicia sua história com um tremendo branco para conseguir escrever; de jeito nenhum ele consegue começar o romance, já previsto em contrato com sua editora. Para tentar resolver o branco, ele viaja para a casa do antigo mentor, Herry Quebert e o enredo principia. A pergunta é: do que você seria capaz para resolver um branco na hora de escrever?

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O Rei de Amarelo

30 de maio de 2014
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Quem tiver o prazer e a curiosidade de abrir O Rei de Amarelo, livro de contos de Robert W. Chambers (1865-1933), provavelmente terá uma grata surpresa.

As razões para essa surpresa podem passar pela construção de um mundo distópico e paralelo, em que vigora uma espécie de organização marcial e onde as personagens são assombradas pela leitura de… Deixo esse tópico para o fim do texto. Faz pensar a raridade em nossa literatura de obras que busquem construir outras realidades, que primem mais pela imaginação do que pela representação – embora essas categorias não sejam assim tão excludentes. Haveria aqui uma realidade incontornável? Haveria noutras paragens uma realidade insuficiente? Ou seria tão-somente uma tradição alegórica imaginativa que não teve tantos adeptos por aqui?

Também chamará atenção outra raridade em nossa árvore: as narrativas de horror. Normalmente narradas em primeira pessoa – justamente para que a limitação de visada do leitor coincida com a limitação do narrador e o mundo se mostre gradativamente -, o escritor consegue dominar, em estilo ao mesmo tempo enxuto e descritivo, o ritmo necessário para que o leitor se aflija com o enredo do conto, em que não raras vezes são contados fatos que se depositariam no que consideraríamos os limiares do universo real.

O livro ainda interessa como representante da literatura gótica americana – palheta que raramente está no debate de nossos cursos de literatura. Lançado em 1895, parece construir uma ponte interessante entre a literatura fantástica do século XIX e a literatura onírica e impactante de alguns autores do século XX, como H.P.Lovecraft, Neil Gaiman e Stephen King. Vale ainda frisar, já na seara biografista, que Chambers tornou-se um exemplo de escritor que, tentado pela feitura de novelas popularescas, abandonou a literatura exigente para morrer confortavelmente estabelecido numa mansão em Nova Iorque, rico e esquecido pela crítica. Feliz?

Há ainda um assunto pendente nesta breve resenha e é ele quem motivará a pergunta promocional. Na primeira parte do livro, as personagens têm contato com uma peça de teatro chamada O Rei de Amarelo. Jamais sabemos o conteúdo literal da obra, mas percebemos pelas reações diante da leitura que se trata de texto insuportável para aqueles que o leem, sobretudo o segundo ato. Muitos enlouquecem, são assombrados, ficam catatônicos, buscam a morte, por causa do livro. O crítico Robert Price chega a dizer que os contos compõem uma espécie de pesadelo coletivo conjunto daqueles que tomaram contato com o conteúdo da obra.

Por conta disso, a pergunta desta resenha é esta: o que você acha que pode conter O Rei de Amarelo para provocar uma reação tão extremada e desesperadora em seus leitores? (As duas melhores respostas ganharão um exemplar do livro, a serem enviados pela Editora Intrínseca).

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Apanhando no Ar

24 de fevereiro de 2014
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O quarto álbum da banda Apanhador Só, Antes que tu conte outra (2013), animou a todos quando saiu. As letras, que já eram boas, melhoraram, a sonoridade criativa do grupo amadureceu e ampliaram-se os temas tratados nas canções. No conjunto, sensivelmente um aumento no tom da conversa.

Passados alguns meses, porém, veio uma surpresa maior. Ouçam só: o trabalho foi gravado entre a primavera de 2012 e o verão de 2013, antes, portanto, de os protestos tomarem as ruas em junho de 2013, mas como entender que a banda pareça ter feito uma espécie de trilha sonora das manifestações que convulsionaram o país no ano passado? Ao menos em Porto Alegre, estou certo de que alguns dos que engrossaram o coro descontente tinham na cabeça uma ou mais canções do CD.

Para não ficar no vazio, em “Mordido”, que abre o álbum – há até um vídeo no Youtube, intitulado “Não vai ter Copa”, que traz a música com uma série de imagens afins aos protestos –, o eu da canção desmascara seu interlocutor, habilmente indeterminado, e dá a ele quase um ultimato. “Essa balela aqui não vai colar / não tá tão fácil assim pra convencer / esse teu papo de querer crescer / (…) não cola mais, já deu pra perceber” ou “O teu esquema sempre foi lograr / criar uma imagem boa pra vender” são versos representativos. Reparem na acusação da mentira, na expressão da descrença, na desconfiança, na afirmação de que há um esquema para enganar e atrair as pessoas – linha a linha, alguns dos cartazes que vimos nas ruas.

As referências estão por todo o álbum e manifestam a possível “gota d’água” sobre vários pontos: “Cansado eu chego em casa, o willian bonner me afaga / me contando alguma fábula de algo que ocorreu” (“Despirocar”), “que é uma delícia / te deixa gorda / ninguém sabe a fórmula / mas tem muito sódio” (“Líquido preto”), “qual é, afinal, o peixe que tu tá vendendo?” (“Por trás”) e a impressionante “Reinação”, que conta o dia da revolução num clima lúdico, bélico e utópico. Letras amplificadas pelo uso de distorções, batidas eletrônicas e sonoridades não ortodoxas – sinetas, latas, campainhas etc. –, que dão um ar de extraído diretamente da vida comum das pessoas e de que o mundo representado é um tipo de engenhoca velha, rangendo.

Descrito o factual – que a banda conseguiu plasmar nas canções muitos dos traços que comporiam os protestos em seguida –, vale pensarmos um pouco sobre como isso foi possível e também investigar em quê isso nos ajuda a entender melhor, tanto as canções, quanto os protestos.

No primeiro caso, e, para o bem da conversa, dispensadas as explicações transcendentais, acho que um caminho interessante seja o entendimento da concepção moderna de artista, qual seja: aquele que busca representar, da maneira mais precisa possível, o tempo e o espaço em que vive. Em nosso tempo e espaço tão velozes, essa definição ganha interessantes matizes, porque, apesar do que diz a física, o tempo não parece chegar ao mesmo tempo para todos nós, ou dizendo de outro jeito, o desenvolvimento das coisas fez com que incontáveis tempos históricos e subjetivos coexistam num mesmo tempo físico em uma sociedade.

Vejamos diretamente no exemplo do álbum, que esclarece. É mais ou menos geral a sensação de que os protestos vieram como desfecho de um processo anterior. Sem entrar nos detalhes da enredo, saímos de uma longa ditadura com várias heranças nefastas, dentre elas: um monopólio dos meios de comunicação, figuras políticas não confiáveis, amplo domínio do mercado por produtos estadunidenses, certo ufanismo patético e infundado, além de uma mudança no perfil da classe média, agora mais consumista e mais imediatista.

No entanto, a maturação dessa conjuntura chega a tempos diversos a cada um. O “basta” veio pra muitos em junho, mas certamente era o pão diário de alguns espíritos indignados um tanto mais cedo. A melhor interpretação da expressão “os artistas são antenas da raça”, de Pound, me parece ser exatamente esta. Artistas (e intelectuais, e estudantes, e taxistas e etecéteras)
podem sentir antes o que está no ar e expressar essa angústia por meio de suas possibilidades.

Esta é a minha explicação do prenúncio: o Apanhador Só apanhou, só, no ar, uma série de insatisfações e fez canção em alto nível no seu mais recente álbum. Antes que tu conte outra atingiu, assim, o ideal da arte moderna, ao representar seu tempo e proporcionar uma chave para que os contemporâneos interpretem a si e ao seu entorno com mais facilidade.

De que nos serve apontar essa simetria (ou isomorfia)? Para o meu gosto, serve também para fazer o caminho inverso e ler os protestos com a lente fornecida pelos artistas. Por essa lente, duas características me soam claras.

A primeira é que o grosso das manifestações viceja e padece por excesso de juventude. Sou certamente do time que prefere jovens inconformados a conformistas, mas muitas vezes me incomoda certa arbitrariedade dos protestos, que acabou derivando para uma posição autoritária (uma querida professora, também de esquerda, menos mineira do que eu, não hesitou: uma posição fascista). Debati na época com alunos que tomavam parte no protesto e me lembro bem de uma estudante que disse: “eu não sei o que fazer, eu só sinto essa angústia, essa coisa na garganta”. Neste álbum, as canções da banda expressam muito bem isso!

A segunda característica, mais abstrata, consiste no diagnóstico de que nossas vidas têm transcorrido numa velocidade muito maior do que antigamente. Alguns conseguem lidar bem com a correria e manter-se firme em meio ao turbilhão, mas a maioria é tragada pela corrente de consumo, expectativas, desejos, rejeições e superficialidades. Uma vontade urgente de refrear o ritmo é uma das notas que se realçam na audição do álbum, como no verso “se a vida é faísca / que brilhe devagar” (“Vita, Ian, Cassales”) ou na queda do andamento de “Não se precipite”, por exemplo.
Podem ter certeza de que um dos componentes dos protestos foi e será um grito desesperado ante a fugacidade, mesmo que muitos não o saibam.

(texto publicado no caderno “Cultura”, da Zero Hora, no dia 22/02/2014)


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Herivelto

4 de fevereiro de 2012
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Por Guto Leite (poeta e doutorando em Canção Popular pela UFRGS)

 

Convido o leitor para uma viagem à época dos imponentes bailes carnavalescos, de uma miséria menos atroz e irremediável, dos caixeiros, dos cassinos, das grandes vozes, de Grande Otelo, do princípio das escolas de samba.

Estamos em Engenheiro Paulo de Frontin (RJ), a 30 de janeiro de 1912, cem anos atrás. Na casa de Félix Bueno, um funcionário público pobre, nasce Herivelto Martins. A família grande, que dificulta o sustento, é perfeita para a Sociedade Dramática Dançante Carnavalesca fundada pelo pai, e é lá que Herivelto arranhará os primeiros instrumentos e desenvolverá seu faro para a oportunidade e seu desembaraço.

Félix progride em seu emprego e é transferido para São Paulo. Os desentendimentos com o filho talentoso aumentam, e Herivelto, então com 18 anos, não vê outra saída senão ir para o Rio de Janeiro. Trabalhando como barbeiro, recebe o convite de um freguês para gerenciar sua barbearia no Morro de São Carlos. Lá, alterna navalha e reco-reco na companhia de muitos dos grandes sambistas do Estácio, fundadores da primeira escola de samba, a Deixa Falar, e responsáveis pela forma como hoje conhecemos o gênero de Noel Rosa, nascido em 1910.

Seu talento como compositor logo fica evidente e Herivelto passa a se apresentar cantando, dançando e atuando. Conhece Francisco Sena, negro, e com ele forma a Dupla Preto e Branco, de nome inteligentemente óbvio. Mas o parceiro morre, em 1935, e entre idas e vindas para recompor seu dueto, cria, dois anos mais tarde, o Trio de Ouro com Dalva de Oliveira e Nilo Chagas. Com a primeira, teve um casamento conturbado e polêmico. O segundo preferia vedetes. Por sete anos o Trio de Ouro reina no Cassino da Urca, mas o presidente Dutra proíbe os jogos, de azar, não o futebol, e o conjunto perde força. Nas décadas seguintes, tenta refazer o Trio com outros componentes, mas não teve sucesso em alcançar a antiga química.

Afastado da música-arte, volta-se para a música-política, sendo Inspetor do Trabalho na área musical na década 60 e presidindo o Sindicato dos Compositores por duas vezes, a última em 1971. A pontualidade e a seriedade que sempre demonstrou nos espetáculos então ganhava uma nova área de atuação.

Nas décadas de 70 e 80, mesmo amuado a respeito da forma como a grande mídia tratava a música popular brasileira, recebe importantes homenagens por sua carreira como compositor. Com mais de quinhentas canções e algumas dezenas de parceiros, Herivelto Martins falece em 1992, deixando belezas como “Izaura”, com Roberto Roberti, “Praça Onze”, com Grande Otelo, “Caminhemos”…

E “Ave-Maria do Morro”. Paremos um pouco no tempo por essa composição que adianta em dez anos a voga dos sambas-canções e depois se mostra absolutamente adequada à contenção divina de João Gilberto na Bossa Nova. “Barracão de zinco / sem telhado, / sem pintura. / Lá no morro, / barracão é bangalô.” Uma construção perfeita de vogais, erres, rimas internas, terminando com a melodia lá em baixo, na inversão da riqueza. “Lá não existe / felicidade / de arranha-céu”. Arranha nome? Arranha verbo? A felicidade plena, sozinha no verso, não existe por lá. “Pois quem mora lá no morro / já vive pertinho do céu”. Lembram daquele “sem”, agora de volta em “quem”? E “lá” em “já”? Tudo perfeito, condensado, nada falta ou sobra. “Tem alvorada / Tem passarada / Alvorecer / Sinfonia de pardais / Anunciando o anoitecer”. Com a melodia em revoada, várias letras a, abertas, para se fechar em enes, quando anoitece; além do verbo-nome, “alvorecer”, no centro da estrofe. “E o morro inteiro, / no fim do dia, / reza uma prece / Ave-Maria”. A santa como nome e como destino da prece, se ouvirmos a preposição escondida ali, antes da santa. Religião e natureza apontadas desde o título e amarradas pelo elemento humano.

De volta ao presente – e espero que o leitor tenha apreciado a viagem –, pergunto pelo lugar de Herivelto Martins na história de nossa música. Seríamos justos se o apreciarmos como um compositor de alguns acertos? Talvez. Mas alerto que um autor capaz de criar “Ave-Maria do Morro” merece nossa atenção. Também tenho poucas dúvidas de que a Bossa Nova, em que não pese todos os benefícios que trouxe, acabou por nos ensurdecer para compositores importantes das décadas de 40 e 50. Quando tudo se tornou pesado, exagerado e brega, alguns autores pagaram um alto preço por isso, e Herivelto Martins foi um deles.

O importante é acharmos os fones certos para ouvirmos determinadas canções. Um fone Bossa Nova não nos serve para ouvir Herivelto Martins; é claro que ele não é um artista do sucinto. Sua obra e sua vida sempre foram de grandes revoadas. Que tal se o ouvirmos sem fones? Que tal se nos depararmos com seus versos de maneira crítica, mas sem as arapucas de qualquer imposição estética?

 

p.s.: o leitor que queira outras viagens, pode conferir o programa Ensaio, da TV Cultura, gravado em 1990. Um contraponto de qualidade ao recente “Dalva e Herivelto: uma canção de amor”.


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Os números de 2011

1 de janeiro de 2012
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Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 1.900 vezes em 2011. Se fosse um bonde, eram precisas 32 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo


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Olhe para os lados: quem Chico representa?

29 de novembro de 2011
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Texto publicado no caderno “Cultura” da Zero Hora, 26 de novembro de 2011.

Falar de Chico Buarque não é fácil. Por um lado, trata-se de um enorme artista, aqui entendido como alguém que domina os meios de sua arte e que foi capaz de fazer na canção uma síntese representativa de algum elemento profundo de nossa cultura (não há muitos desse tipo por aí). Por outro lado, o nível de devoção de seus admiradores beira a fé religiosa, tornando difícil, mesmo entre pessoas esclarecidas, colocar qualquer ressalva quanto a qualquer parte de sua obra (inclusive estendendo essa autoridade simbólica aos campos do romance e do teatro). Foi nessa esteira que aceitei o desafio e a delícia de analisar “Chico”, o novo álbum do cancionista.

É um gastar à toa dos teus olhos, leitor, comentar a excelência musical deste trabalho. Com direção e arranjos de Luiz Cláudio Ramos, que acompanha Chico há muitos anos, tudo faz muito sentido musicalmente. Da escolha dos instrumentistas à maneira orgânica como o álbum foi gestado, a parceria não abre mão de uma qualidade impecável. Chamo a atenção, pontualmente, para o arranjo de “Nina”, oitava canção do CD, onde violoncelo e acordeão conversam talvez reproduzindo o envolvimento do eu-lírico com a personagem-título; ou para a mescla de violino e piano em “Essa pequena” (aliás, duos que parecem ecoar para dentro do álbum como uma representação instrumental do amor, tema que predomina em “Chico”). Nota não muito feliz, e só mesmo uma nota, para a escolha de “Sinhá” (Chico Buarque/João Bosco) como encerramento. Além da forma exótica e de baixa rotação poética do tratamento da escravidão, o desfecho coincidente (“E assim vai se encerrar / O conto de um cantor…”) acaba por esvaziar as duas unidades, a canção e o álbum.

Tampouco o leitor me verá aqui desperdiçar-nos na discussão do talento de Chico em “Chico”. Segue o encantamento muito, mas muito, acima da média do que temos por aí. Talvez afinado a certa tendência na MPB séria, as entoações (melodia + letra) estão ainda mais sofisticadas, dificultando o ouvido que, por pressa, se adianta na audição da canção. Ainda estão presentes belos achados poéticos, como “De volta a [sic] casa, recolhi um cão / Que de hora em hora me arranca um pedaço” (“Querido diário”), “Gravei na memória / Mas perdi a senha” (“Barafunda”) ou “Nina anseia por me conhecer em breve / Me levar para a noite de Moscou / Sempre que esta valsa toca / Fecho os olhos, bebo alguma vodca / E vou” (“Nina”). Outra nota destoante, de ressalva, para o verso “Amar uma mulher sem orifício” (“Querido diário”) e alguns deslizes nas letras das músicas no encarte. Parece coisa de conservador turrão, mas se as letras do Chico têm notável qualidade poética, e têm, é preciso ter no encarte um cuidado maior.

Bom, meu amigo, o que resta então para falarmos do “Chico”? Uma coisa talvez… e sinto que seja essa uma das tensões daquela questão inicial, relembro, que se trata de um grande artista há décadas e que isso torna quase impossível discuti-lo. Pois lá vai: qual é a representatividade hoje da atual obra de Chico Buarque? Ou seja, você se identifica? Quer dizer: Chico diz aquilo que você gostaria de dizer do jeito que você diria se pudesse? Olhe para os lados: os últimos álbuns do Chico representam seus pais? Seus filhos? Seu companheiro? Companheira? Amigos? Colegas de trabalho? Desculpem-me o excesso de perguntas, mas… por que os últimos cd’s do Chico representam ou não as pessoas que você considerou na tua análise?

Antecipando meu argumento ao professor Luís Augusto Fischer, daqui pertinho, do “Pesqueiro”, ele me relatou a ansiedade com que se esperava um novo trabalho de Chico Buarque. Como um “intérprete do Brasil” (LAF), claro, todos queriam saber de que forma ele estava lendo o país. Por exemplo, em “Pelas tabelas” (1984), repleta de elementos do processo de redemocratização brasileira – exemplo do professor Fischer – ou em “Feijoada completa” (1977), mais cifrada, anunciando uma anistia inevitável para os anos seguintes. Mas e agora? Ainda ouvimos “Chico” esperando entender mais sobre este mundo brasileiro que nos cerca?

Não sei se sim, mas – voltando ao álbum – há interpretações importantes do artista sobre assuntos bem contemporâneos. A mais acertada delas, na minha audição, “Rubato”, traz três eu-líricos distintos que chamam suas respectivas musas para ouvir a canção: o primeiro a compôs (mas tem medo que outro a roube), o segundo a roubou (e também está com medo) e o terceiro nada comenta a respeito, mas alardeia ser aquela a sua última canção – o toque de humor está nas musas que rimam: Aurora, Amora, Teodora; além do tratamento rocambolesco do caso. Em segundo plano, a discussão sobre a autoria confiável em canção popular e os reconhecimentos oficiais possíveis (o songbook, a televisão e o espetáculo aparecem na canção). De fundo, a velocidade com que a canção de um vira de outro e mesmo as mulheres se misturam, num ritmo de mudança pra lá de estonteante em somente três estrofes.

(Em contrapartida, uma canção como “Tipo um baião”, em que pese a beleza do arranjo e do Gonzaga surgindo no último verso, soa quase como aquela mãe que simula a gíria dos filhos para se enturmar).

Antes que os beatos se inflamem, professo que ao menos uma canção do álbum terá lugar no disputado panteão das melhores canções do artista: “Essa pequena”. Um blues que parece simples na oposição de um amante maduro a uma amante mais jovem, mas que guarda imensa sofisticação na construção das rimas, além de muita sinceridade no tratamento do tema. Quase podemos ver o homem que racionaliza a diferença de idade e os percalços que isso lhe trará, mas é “tão feliz com ela” que não pode se conter. (Se puderem, reparem no “ai” do décimo segundo verso, é nesses detalhes que “Chico” é Chico). No fim, ainda me diz: “O blues já valeu a pena”. Valeu nada, eu duvido, os anos que o eu-lírico gostaria de passar com sua pequena não são pagos por um blues, mesmo dos melhores – e isso está no tom da canção (e talvez na escolha do blues como gênero).

Lembra daquela questão de representatividade? Então, quando Chico elabora sinceramente suas impressões e sensações, como é o caso de “Essa pequena” (ou “Sem você 2”), ele é todo mundo na vastidão de sua humanidade, e por isso me representa. Quando busca outras dicções, e há outras dicções no álbum, reconheço o exímio cancionista (o melhor de todos?), mas não me reconheço – enquanto outros se reconhecem. Entender a trajetória dessa representatividade talvez seja um bom caminho para começar a ouvir bem o “Chico”.

 

Guto Leite,

Poeta e doutorando em Canção Popular (UFRGS)

 


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24 de agosto de 1954

27 de setembro de 2011
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Se eu fosse um pouco mais velho e dissesse a vocês: guardem bem os teus prazeres, pois não são muitos; certo que me dariam muito mais atenção do que agora. Um desses poucos mas ilimitados prazeres de que me tenho valido advém da presença costumeira de Maria Regina Jacob Pilla no café do Instituto de Letras da UFRGS. O texto que publico abaixo saiu ontem na Folha de São Paulo e, de minha modesta mirada, é das prosas mais vigorosas com que tomei contato nos últimos tempos!

24 de agosto  de 1954.

Estava com febre e coceiras pelo corpo. Varicela disse o médico, Dr. Enio Pilla, de sorriso aberto, vozeirão, um homem bonito que entrava pela casa escancarando portas e janelas.

24 de agosto, é dia do meu aniversário. Eu ali, na cama, debaixo dos acolchoados, sem poder falar com as outras crianças.  Acordada, me revirava entre os cobertores naquela manhã de inverno.  Foi quando a vizinha chamou a mãe e falou aos gritos que Getúlio se suicidara e que havia um quebra-quebra no centro da cidade. A mãe ficou esbaforida por causa do pai (no andar inferior ao escritório dele, estava a sede do Partido Libertador, do nosso parente Raul Pilla, gente que não apreciava Getúlio). Ela foi então à casa do outro vizinho pedir para usar o telefone.  Voltou mais agitada, quase chorando. O telefone do pai não respondia e o vizinho dizia que muitos edifícios no centro de Porto Alegre estavam queimando.  Se eu não estivesse ali, presa à cama, a mãe teria ido buscar o pai com seus pés e mãos. Então, acho que sem querer eu talvez tenha salvado a vida dela.  Ninguém morreu naquele dia, mas é um pensamento bom para uma filha ter.

A manhã foi indo a passo de lesma, a mãe sentou na beirada da minha cama e olhava para o chão, a cabeça meio caída, fungando de vezem quando.  Meucorpo desmilinguido estava dominado por uma bola que subia e descia. Eu não queria olhar pra ela e ver lágrimas. Ver a mãe chorar dava muito medo. Ô manhã tartarugosa. Não andava.

Barulho na fechadura. Saltamos as duas. Enrolei-me no cobertor a tempo de ver o pai entrando com a roupa toda chamuscada, parecia um carvão. A mãe foi firme na direção dele, ficaram ali abraçados.

O pai sentou na poltrona, acendeu o cigarro e teve um violento acesso de tosse.  A vizinha começou a gritar no muro por notícias. A mãe correu pra janela avisar que o pai estava em casa, todo queimado, as roupasem frangalhos. Disseque ele tinha descido três andares pelas escadasem chamas.  Houvefogo na sede do PL. A vizinha veio e com a mãe deitaram o pai na cama, limparam as feridas do rosto e colocaram uma pomada amarela, Picrato. Milagrosa. Difícil de encontrar.

Todo amarelo, todo encarvoado, o pai dormiu assim mesmo.  A gente não sabia o que fazer. A mãe ligou o rádio. Havia esquecido, na afobação.  Falavam de quebra-quebra na Salgado Filho, na Rua da Praia, jogavam os móveis e máquinas dos escritórios pelas janelas. Era tudo muito confuso. Os jornalistas do rádio, naquela situação, pareciam estar irradiando uma partida de futebol e não o suicídio do chefe da nação, aos gritos, sem acertar as ideias.

Alguns dias depois, o irmão do pai, o único na família que tinha um automóvel veio à nossa casa e nos levou para vermos os destroços.  Eu ainda tinha muita febre. O que vimos foi demais para nossa sensibilidade ingênua. Em certos lugares os móveis ainda fumegavam. Os escombros eram altos; as cadeiras retorcidas, folhas e mais folhas de papel ardiam pelo chão. Olhando para o alto, algumas paredes estavam enegrecidas, portas haviam sido derrubadas com fúria.

Naqueles dias dos meus oito anos, o caudilho enveredou para a  eternidade enfrascado num inacreditável pijama listado.

***

Maria Regina Jacob Pilla nasceu em Porto Alegre, foi militante do Partido Operário Comunista (POC) no Brasil e do Partido Revolucionário de los Trabajadores  (PRT) na Argentina durante a ditaduras militares desses países.  Esteve exilada de 1970 a 1992. Atualmente estuda Letras na UFRGS e conclui um livro de memórias de onde foi tirado o presente texto.


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O velho provérbio das montanhas…

20 de setembro de 2011
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Não existe um velho ditado que diga: quando achamos a maior montanha, todas as outras mudam de tamanho. Mas deveria haver. Por ele eu tentaria explicar como foi o show de Maria João e Mário Laginha no Porto Alegre em Cena.

Posso citar aqui a rápida trajetória da intérprete, que tornou público seu talento há pouco mais de vinte anos – a artista tinha 27 – e hoje é uma referência como cantora de jazz e dos demais gêneros. Também posso contar da longa parceria de Laginha e João (como as pessoas mais íntimas tratam Maria), que rendeu discos saborosos como Chocolate (2008), álbum que dá nome espetáculo. Nada disso, porém, corresponderia ao assombro de assistir a uma fabulosa mistura de quatro continentes de musicalidade, técnicas orientais cênicas e respiratórias, um espectro vocal muito extenso e afinadíssimo, além de uma variação de timbres que impressiona mesmo as pessoas mais acostumadas.

Mário Laginha, premiado pianista português, foi tecnicamente impecável, muito sensível e de ótimo gosto nos improvisos e acompanhamentos. Em alguns momentos do espetáculo, soube muito bem ser protagonista, chegando a ser aplaudido pelo público num de seus improvisos mais inspirados. Já Maria João é, de fato, aquela grande montanha de que falei na primeira linha. Assisti-la cantar é reconhecer facilmente que Billie Holiday e Ella Fitzgerald tiveram continuidade nas terras d’além-mar, em especial, nas canções “Parrots and lions” e “Beatriz”, que demorarão a deixar os meus ouvidos – não é a primeira vez que olhares longe da origem e do centro revigoram uma arte secular.

Assim que as primeiras notas do espetáculo soaram, me esqueci por um instante que já tinha ido a shows de outras cantoras. Trata-se do poder da arte verdadeira em construir momentos absolutos. Que as outras montanhas desculpem meu entusiasmo, mas nunca estive tão perto de um artista maior.

(publicado no jornal Zero Hora, 08 de setembro de 2011)


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Eu não vim fazer discurso

8 de setembro de 2011
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PROMOÇÃO TROMBONE-RECORD: cite um discurso que foi importante na tua vida e por quê, e concorra ao novo livro de Gabriel García Márquez, Eu não vim fazer um discurso. O Trombone escolherá um dos comentários feitos entre 08/09 e 15/09, premiando o autor com um exemplar da obra.

Não sei se há obra de fôlego sobre a estrutura dos discursos, esse tipo de texto tão peculiar feito para ser falado em público, mas escrito no silêncio privado. É de uma variedade deliciosa de discursos que se compõe o novo livro de García Márquez, Eu não vim fazer um discurso, que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Record. Que ali há mais aspectos do escritor do que no narrador de seus romances, não há dúvida, mas não podemos perder de vista a construção inevitável de uma persona, sobretudo a alguém declaradamente avesso a discursar.

A seleção preparada por Cristóbal Pera é de amplo espectro, indo desde um discurso de formatura no Liceu (para uma classe um ano superior à sua), em 1944, até sua fala em um Congresso Internacional de língua espanhola em homenagem ao escritor, realizado em 2007. Por isso, somos capazes de perceber ao longo do livro, um amadurecimento gradual do escritor e do homem público – o que é reconhecido pelo próprio García Márquez (p.117) – e podemos recolher algumas preciosidades.

A primeira delas que gostaria de comentar é “A solidão da América Latina”, discurso proferido na premiação do Nobel, em Estocolmo, 1982. No todo, trata-se de uma fala profundamente sensível aos problemas de nossa parte da América, seu déficit em relação ao centro do mundo e suas aspirações próprias, que não necessariamente passam pelos moldes europeus ou estadunidenses. Do alegórico, Márquez traça algumas semelhanças em como os primeiros cronistas europeus nos viram e como a visão deturpada seguia (ou segue) sendo uma nota dominante na apreciação de nosso povo.

A segunda preciosidade, dentre outras que poderia citar, é intitulada “Meu amigo Mutis” e foi lida por Gabriel García Márquez na noite de aniversário de 70 anos do amigo, em 25 de agosto de 1973. Um conjunto de histórias acerca de Álvaro Mutis que revelam tanto o espírito aceso do poeta colombiano, quanto o bom humor e o poder de observação do ganhador do Nobel. Da forma como foi presenteado com um exemplar de Pedro Páramo pelo amigo ao dia em que quase morreram juntos num acidente de carro na Europa, são muitas as pinceladas de Márquez que colorem ao mesmo tempo quadro e pintor.

Ao leitor mais afeito a um olhar de conjunto, também é possível notar nos discursos o engajamento do escritor a diferentes causas (relação Colômbia-EUA, o crescimento da violência, cultura latino-americana, desarmamento nuclear etc.), aspectos da vida pessoal de García Márquez e até certos equívocos puristas, ao condenar, por exemplo, o tempo do gravador na profissão jornalística, ou linguísticos, ao vaticinar um grande futuro à língua espanhola por sua “dinâmica criativa”. A prova, enfim, da riqueza do livro são as maneiras diferentes de abordá-lo de forma interessante.

A obra que li e gostaria de compartilhar não tem, claro, a pujança de Cem anos de solidão ou Amor nos tempos do cólera. A comparação chega ao ridículo, ainda mais para mim, que as li em épocas tão especiais da vida e por puro gosto. Mas também é maravilhoso brincar de achar e perder o escritor tímido, capaz de dizer, num discurso: “eu comecei a ser escritor da mesma forma que subi neste palco: à força”. Colocar-se um pouco mais à frente no teatro, em relação ao escritor, do que aquela cadeira ao fundo da leitura dos romances, onde há sempre um narrador a quem tocamos no ombro para poder ver o palco, se for este o caso.


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    Biografia

    Poeta dos livros "entrechos ou valas do silêncio" (2013), "zero um" (2010), "poemas lançados fora" (2007), "sintaxe da última hora" (2006) e "reflexos" (2000). Premiado em diversos concursos literários e presente em algumas coletâneas de poesia. Cantor e compositor premiado em festivais de canção popular e gravado por alguns artistas e bandas. Co-roteirista dos filmes de curta-metragem "Bons sonhos, Maria"(2006), "Revés" (2008) e "Estado Senil" (2009). Argumentista da personagem Júlio César, publicado pela primeira vez em setembro de 2009, mas ainda aguardando uma edição própria e de maior fôlego. Contista, dramaturgo e romancista ainda inédito. Linguista pela Unicamp. Especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Professor adjunto de Literatura Brasileira na UFRGS.

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