Trombone: Blog de Crítica de Arte em Porto Alegre

Zeca Baleiro F. C. | 4 de outubro de 2015

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Quando mediei uma conversa entre Zeca Baleiro e Vitor Ramil em 2011, comecei a conversa dizendo que eu me sentia um árbitro do Barcelona e Real Madrid da canção brasileira dos anos 90, meu objetivo era não atrapalhar o jogo. O Zeca não deixou a bola cair e me provocou curiosamente: “mas quem é o Barcelona?”

É claro que eu tinha pensado sobre isso e o Barcelona era ele, enquanto o Real Madrid era o Vitor. Dá pra desenvolver mais a comparação dos dois, mas eu pensava especificamente nos gestos de cada um como artista, em suas dicções. Dentro do campo de entender a canção como trabalho, o primeiro arrisca-se em prol do espetáculo, é exuberante em seu jogo, perde eventualmente, mas encanta, enquanto o segundo tem confiança num certo modo de ser que antecede aquela partida em especial, tem um jogo eficiente, raramente perde, de gesto impecável, mas geralmente pouco encantador. (Vale dizer que, em geral, torço pro Real, mas prefiro ver o Barça jogando.)

Recupero a história para saudar o show em que Zeca Baleiro canta Zé Ramalho e que tive a oportunidade de ver ontem à noite, no teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre. Seria possível falar sobre vários méritos do projeto e do show, como a versatilidade muito competente da banda, os arranjos coletivos e criativos, os interessantes recursos de luzes e vídeos, a escolha muito feliz do repertório, que dá uma dimensão espantosa do tamanho da obra de Zé Ramalho etc., mas quero me focar em três.

Primeiro: fico impressionado com a quantidade de projetos que o Zeca Baleiro desenvolve ou se envolve. O mais interessante pra mim é que ele mora em São Paulo, mas não se “apaulistanou” – ser paulistano não é um defeito, só em aproximadamente 80% dos casos. Melhor dizendo, tenho a impressão de que ele sabe que é estrangeiro e comporta-se como um amável contrabandista de capital simbólico, iluminando artistas e aspectos da cultura nordestina a partir da máquina cancional estabelecida na pauliceia. Desculpem-me os integralistas, mas acho não se integrar um grande mérito. Nesse sentido, conversa antes com artistas de fora dessa cena, Zelia Duncan, Tom Zé, Ednardo, Fagner, entre outros, do que busca um lugar. Em síntese, acho que o Baleiro saber que é “o outro” e é a partir daí que organiza suas forças – só pra dar contraste na comparação, porque desenvolver isso renderia outro texto, comparem com a maneira como Lenine se carioquizou – se acariocar, veja bem, não é um defeito, é claro, só em aproximadamente 80% dos casos.

Segundo: desta vez a obra iluminada foi a de Zé Ramalho, que o grande público conhece do Grande Encontro ou do Rei do Gado, mas que é muito mais do que isso. O show foi capaz de sublinhar o quanto o compositor é uma das dicções mais marginais nos complicados anos 70. Não é Ave Sangria, mas também não tem a loucura límpida de Alceu Valença e Geraldo Azevedo. Numa combinação muito peculiar de profecia, mistério e engajamento, combinação que o próprio show ajuda a desvelar, tem algo de arranhado na poesia de Zé Ramalho e isso casou bem com o trabalho do Zeca. Ambos tencionam a relação com o público, o mercado, o “bom gosto” – no show, por exemplo, o boa noite só veio lá adiante, para desespero de parte da consumista plateia, não obstante a simpatia do intérprete todo o tempo.

Terceiro: não sendo acadêmico, e tendo certa aversão (que até considero meio boba) em relação à academia, Zeca Baleiro interfere como artista-agente-crítico no panorama da canção. Nesse sentido, age muito mais decisivamente do que a maioria dos acadêmicos que estuda canção popular. Quando grava o artista x em seus selos, faz show do artista y, comenta o artista z, está ampliando o horizonte da canção e em boa medida dizendo: você deveria ouvir fulano, não dá pra esquecer ciclano. Esse lado não propriamente artístico do artista é cada vez mais raro num universo dominado por grana e interesses correlatos.

A única coisa a lamentar, em certo sentido, é que o projeto caminha pro seu fim, sendo o show de ontem o antepenúltimo show da turnê. A alegria desse fim é saber que agora vêm gestos novos por aí, novos dribles, novas táticas. Que jogo vai nos propor o Zeca Baleiro F. C.? Vai dar certo? O que é dar certo no campo da arte? Numa passagem do show, o Zeca imaginou a cena dos empresários de gravadoras ouvindo “Vida de gado” pela primeira vez e não entendendo nada. Zé Ramalho deu errado ou deu certo? Cá do meu lugar na arquibancada, deu certo, mesmo que tenha passado por certo ostracismo na segunda metade dos anos 80, mas que seja desconhecido por parte importante do público de hoje. Um viva a esses artistas que sabem que dar certo é também dar errado! Viva!

https://www.youtube.com/watch?v=XFodV7GVJBQ

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3 Comentários »

  1. Ele é uma pessoa de essência , faz com que todos nos conheçamos o que é verdade , o que há de melhor na musica…. Viva Zeca Paz, Luz e Axé

    Comentário por AUDREY CARLA DA LUZ — 6 de outubro de 2015 @ 9:36

  2. é bem isso. Zeca vai ampliando os horizontes do seu publico também, intencionalmente me parece, compartilhando generosamente todo esse conhecimento. Salve a canção brasileira!

    Comentário por Izabel Schneider — 6 de outubro de 2015 @ 1:48

  3. Gostei muito do show. Me caiu os butiá. Fiquei impressionado com os arranjos. Showzaço !!.. E foi ótimo de te rever tb. Abç.

    Comentário por Iuri Palma — 5 de outubro de 2015 @ 9:54


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    Biografia

    Poeta dos livros "entrechos ou valas do silêncio" (2013), "zero um" (2010), "poemas lançados fora" (2007), "sintaxe da última hora" (2006) e "reflexos" (2000). Premiado em diversos concursos literários e presente em algumas coletâneas de poesia. Cantor e compositor premiado em festivais de canção popular e gravado por alguns artistas e bandas. Co-roteirista dos filmes de curta-metragem "Bons sonhos, Maria"(2006), "Revés" (2008) e "Estado Senil" (2009). Argumentista da personagem Júlio César, publicado pela primeira vez em setembro de 2009, mas ainda aguardando uma edição própria e de maior fôlego. Contista, dramaturgo e romancista ainda inédito. Linguista pela Unicamp. Especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Professor adjunto de Literatura Brasileira na UFRGS.

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