Trombone: Blog de Crítica de Arte em Porto Alegre

Herivelto

4 de fevereiro de 2012
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Por Guto Leite (poeta e doutorando em Canção Popular pela UFRGS)

 

Convido o leitor para uma viagem à época dos imponentes bailes carnavalescos, de uma miséria menos atroz e irremediável, dos caixeiros, dos cassinos, das grandes vozes, de Grande Otelo, do princípio das escolas de samba.

Estamos em Engenheiro Paulo de Frontin (RJ), a 30 de janeiro de 1912, cem anos atrás. Na casa de Félix Bueno, um funcionário público pobre, nasce Herivelto Martins. A família grande, que dificulta o sustento, é perfeita para a Sociedade Dramática Dançante Carnavalesca fundada pelo pai, e é lá que Herivelto arranhará os primeiros instrumentos e desenvolverá seu faro para a oportunidade e seu desembaraço.

Félix progride em seu emprego e é transferido para São Paulo. Os desentendimentos com o filho talentoso aumentam, e Herivelto, então com 18 anos, não vê outra saída senão ir para o Rio de Janeiro. Trabalhando como barbeiro, recebe o convite de um freguês para gerenciar sua barbearia no Morro de São Carlos. Lá, alterna navalha e reco-reco na companhia de muitos dos grandes sambistas do Estácio, fundadores da primeira escola de samba, a Deixa Falar, e responsáveis pela forma como hoje conhecemos o gênero de Noel Rosa, nascido em 1910.

Seu talento como compositor logo fica evidente e Herivelto passa a se apresentar cantando, dançando e atuando. Conhece Francisco Sena, negro, e com ele forma a Dupla Preto e Branco, de nome inteligentemente óbvio. Mas o parceiro morre, em 1935, e entre idas e vindas para recompor seu dueto, cria, dois anos mais tarde, o Trio de Ouro com Dalva de Oliveira e Nilo Chagas. Com a primeira, teve um casamento conturbado e polêmico. O segundo preferia vedetes. Por sete anos o Trio de Ouro reina no Cassino da Urca, mas o presidente Dutra proíbe os jogos, de azar, não o futebol, e o conjunto perde força. Nas décadas seguintes, tenta refazer o Trio com outros componentes, mas não teve sucesso em alcançar a antiga química.

Afastado da música-arte, volta-se para a música-política, sendo Inspetor do Trabalho na área musical na década 60 e presidindo o Sindicato dos Compositores por duas vezes, a última em 1971. A pontualidade e a seriedade que sempre demonstrou nos espetáculos então ganhava uma nova área de atuação.

Nas décadas de 70 e 80, mesmo amuado a respeito da forma como a grande mídia tratava a música popular brasileira, recebe importantes homenagens por sua carreira como compositor. Com mais de quinhentas canções e algumas dezenas de parceiros, Herivelto Martins falece em 1992, deixando belezas como “Izaura”, com Roberto Roberti, “Praça Onze”, com Grande Otelo, “Caminhemos”…

E “Ave-Maria do Morro”. Paremos um pouco no tempo por essa composição que adianta em dez anos a voga dos sambas-canções e depois se mostra absolutamente adequada à contenção divina de João Gilberto na Bossa Nova. “Barracão de zinco / sem telhado, / sem pintura. / Lá no morro, / barracão é bangalô.” Uma construção perfeita de vogais, erres, rimas internas, terminando com a melodia lá em baixo, na inversão da riqueza. “Lá não existe / felicidade / de arranha-céu”. Arranha nome? Arranha verbo? A felicidade plena, sozinha no verso, não existe por lá. “Pois quem mora lá no morro / já vive pertinho do céu”. Lembram daquele “sem”, agora de volta em “quem”? E “lá” em “já”? Tudo perfeito, condensado, nada falta ou sobra. “Tem alvorada / Tem passarada / Alvorecer / Sinfonia de pardais / Anunciando o anoitecer”. Com a melodia em revoada, várias letras a, abertas, para se fechar em enes, quando anoitece; além do verbo-nome, “alvorecer”, no centro da estrofe. “E o morro inteiro, / no fim do dia, / reza uma prece / Ave-Maria”. A santa como nome e como destino da prece, se ouvirmos a preposição escondida ali, antes da santa. Religião e natureza apontadas desde o título e amarradas pelo elemento humano.

De volta ao presente – e espero que o leitor tenha apreciado a viagem –, pergunto pelo lugar de Herivelto Martins na história de nossa música. Seríamos justos se o apreciarmos como um compositor de alguns acertos? Talvez. Mas alerto que um autor capaz de criar “Ave-Maria do Morro” merece nossa atenção. Também tenho poucas dúvidas de que a Bossa Nova, em que não pese todos os benefícios que trouxe, acabou por nos ensurdecer para compositores importantes das décadas de 40 e 50. Quando tudo se tornou pesado, exagerado e brega, alguns autores pagaram um alto preço por isso, e Herivelto Martins foi um deles.

O importante é acharmos os fones certos para ouvirmos determinadas canções. Um fone Bossa Nova não nos serve para ouvir Herivelto Martins; é claro que ele não é um artista do sucinto. Sua obra e sua vida sempre foram de grandes revoadas. Que tal se o ouvirmos sem fones? Que tal se nos depararmos com seus versos de maneira crítica, mas sem as arapucas de qualquer imposição estética?

 

p.s.: o leitor que queira outras viagens, pode conferir o programa Ensaio, da TV Cultura, gravado em 1990. Um contraponto de qualidade ao recente “Dalva e Herivelto: uma canção de amor”.


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Os números de 2011

1 de janeiro de 2012
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Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 1.900 vezes em 2011. Se fosse um bonde, eram precisas 32 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo


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Olhe para os lados: quem Chico representa?

29 de novembro de 2011
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Texto publicado no caderno “Cultura” da Zero Hora, 26 de novembro de 2011.

Falar de Chico Buarque não é fácil. Por um lado, trata-se de um enorme artista, aqui entendido como alguém que domina os meios de sua arte e que foi capaz de fazer na canção uma síntese representativa de algum elemento profundo de nossa cultura (não há muitos desse tipo por aí). Por outro lado, o nível de devoção de seus admiradores beira a fé religiosa, tornando difícil, mesmo entre pessoas esclarecidas, colocar qualquer ressalva quanto a qualquer parte de sua obra (inclusive estendendo essa autoridade simbólica aos campos do romance e do teatro). Foi nessa esteira que aceitei o desafio e a delícia de analisar “Chico”, o novo álbum do cancionista.

É um gastar à toa dos teus olhos, leitor, comentar a excelência musical deste trabalho. Com direção e arranjos de Luiz Cláudio Ramos, que acompanha Chico há muitos anos, tudo faz muito sentido musicalmente. Da escolha dos instrumentistas à maneira orgânica como o álbum foi gestado, a parceria não abre mão de uma qualidade impecável. Chamo a atenção, pontualmente, para o arranjo de “Nina”, oitava canção do CD, onde violoncelo e acordeão conversam talvez reproduzindo o envolvimento do eu-lírico com a personagem-título; ou para a mescla de violino e piano em “Essa pequena” (aliás, duos que parecem ecoar para dentro do álbum como uma representação instrumental do amor, tema que predomina em “Chico”). Nota não muito feliz, e só mesmo uma nota, para a escolha de “Sinhá” (Chico Buarque/João Bosco) como encerramento. Além da forma exótica e de baixa rotação poética do tratamento da escravidão, o desfecho coincidente (“E assim vai se encerrar / O conto de um cantor…”) acaba por esvaziar as duas unidades, a canção e o álbum.

Tampouco o leitor me verá aqui desperdiçar-nos na discussão do talento de Chico em “Chico”. Segue o encantamento muito, mas muito, acima da média do que temos por aí. Talvez afinado a certa tendência na MPB séria, as entoações (melodia + letra) estão ainda mais sofisticadas, dificultando o ouvido que, por pressa, se adianta na audição da canção. Ainda estão presentes belos achados poéticos, como “De volta a [sic] casa, recolhi um cão / Que de hora em hora me arranca um pedaço” (“Querido diário”), “Gravei na memória / Mas perdi a senha” (“Barafunda”) ou “Nina anseia por me conhecer em breve / Me levar para a noite de Moscou / Sempre que esta valsa toca / Fecho os olhos, bebo alguma vodca / E vou” (“Nina”). Outra nota destoante, de ressalva, para o verso “Amar uma mulher sem orifício” (“Querido diário”) e alguns deslizes nas letras das músicas no encarte. Parece coisa de conservador turrão, mas se as letras do Chico têm notável qualidade poética, e têm, é preciso ter no encarte um cuidado maior.

Bom, meu amigo, o que resta então para falarmos do “Chico”? Uma coisa talvez… e sinto que seja essa uma das tensões daquela questão inicial, relembro, que se trata de um grande artista há décadas e que isso torna quase impossível discuti-lo. Pois lá vai: qual é a representatividade hoje da atual obra de Chico Buarque? Ou seja, você se identifica? Quer dizer: Chico diz aquilo que você gostaria de dizer do jeito que você diria se pudesse? Olhe para os lados: os últimos álbuns do Chico representam seus pais? Seus filhos? Seu companheiro? Companheira? Amigos? Colegas de trabalho? Desculpem-me o excesso de perguntas, mas… por que os últimos cd’s do Chico representam ou não as pessoas que você considerou na tua análise?

Antecipando meu argumento ao professor Luís Augusto Fischer, daqui pertinho, do “Pesqueiro”, ele me relatou a ansiedade com que se esperava um novo trabalho de Chico Buarque. Como um “intérprete do Brasil” (LAF), claro, todos queriam saber de que forma ele estava lendo o país. Por exemplo, em “Pelas tabelas” (1984), repleta de elementos do processo de redemocratização brasileira – exemplo do professor Fischer – ou em “Feijoada completa” (1977), mais cifrada, anunciando uma anistia inevitável para os anos seguintes. Mas e agora? Ainda ouvimos “Chico” esperando entender mais sobre este mundo brasileiro que nos cerca?

Não sei se sim, mas – voltando ao álbum – há interpretações importantes do artista sobre assuntos bem contemporâneos. A mais acertada delas, na minha audição, “Rubato”, traz três eu-líricos distintos que chamam suas respectivas musas para ouvir a canção: o primeiro a compôs (mas tem medo que outro a roube), o segundo a roubou (e também está com medo) e o terceiro nada comenta a respeito, mas alardeia ser aquela a sua última canção – o toque de humor está nas musas que rimam: Aurora, Amora, Teodora; além do tratamento rocambolesco do caso. Em segundo plano, a discussão sobre a autoria confiável em canção popular e os reconhecimentos oficiais possíveis (o songbook, a televisão e o espetáculo aparecem na canção). De fundo, a velocidade com que a canção de um vira de outro e mesmo as mulheres se misturam, num ritmo de mudança pra lá de estonteante em somente três estrofes.

(Em contrapartida, uma canção como “Tipo um baião”, em que pese a beleza do arranjo e do Gonzaga surgindo no último verso, soa quase como aquela mãe que simula a gíria dos filhos para se enturmar).

Antes que os beatos se inflamem, professo que ao menos uma canção do álbum terá lugar no disputado panteão das melhores canções do artista: “Essa pequena”. Um blues que parece simples na oposição de um amante maduro a uma amante mais jovem, mas que guarda imensa sofisticação na construção das rimas, além de muita sinceridade no tratamento do tema. Quase podemos ver o homem que racionaliza a diferença de idade e os percalços que isso lhe trará, mas é “tão feliz com ela” que não pode se conter. (Se puderem, reparem no “ai” do décimo segundo verso, é nesses detalhes que “Chico” é Chico). No fim, ainda me diz: “O blues já valeu a pena”. Valeu nada, eu duvido, os anos que o eu-lírico gostaria de passar com sua pequena não são pagos por um blues, mesmo dos melhores – e isso está no tom da canção (e talvez na escolha do blues como gênero).

Lembra daquela questão de representatividade? Então, quando Chico elabora sinceramente suas impressões e sensações, como é o caso de “Essa pequena” (ou “Sem você 2”), ele é todo mundo na vastidão de sua humanidade, e por isso me representa. Quando busca outras dicções, e há outras dicções no álbum, reconheço o exímio cancionista (o melhor de todos?), mas não me reconheço – enquanto outros se reconhecem. Entender a trajetória dessa representatividade talvez seja um bom caminho para começar a ouvir bem o “Chico”.

 

Guto Leite,

Poeta e doutorando em Canção Popular (UFRGS)

 


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24 de agosto de 1954

27 de setembro de 2011
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Se eu fosse um pouco mais velho e dissesse a vocês: guardem bem os teus prazeres, pois não são muitos; certo que me dariam muito mais atenção do que agora. Um desses poucos mas ilimitados prazeres de que me tenho valido advém da presença costumeira de Maria Regina Jacob Pilla no café do Instituto de Letras da UFRGS. O texto que publico abaixo saiu ontem na Folha de São Paulo e, de minha modesta mirada, é das prosas mais vigorosas com que tomei contato nos últimos tempos!

24 de agosto  de 1954.

Estava com febre e coceiras pelo corpo. Varicela disse o médico, Dr. Enio Pilla, de sorriso aberto, vozeirão, um homem bonito que entrava pela casa escancarando portas e janelas.

24 de agosto, é dia do meu aniversário. Eu ali, na cama, debaixo dos acolchoados, sem poder falar com as outras crianças.  Acordada, me revirava entre os cobertores naquela manhã de inverno.  Foi quando a vizinha chamou a mãe e falou aos gritos que Getúlio se suicidara e que havia um quebra-quebra no centro da cidade. A mãe ficou esbaforida por causa do pai (no andar inferior ao escritório dele, estava a sede do Partido Libertador, do nosso parente Raul Pilla, gente que não apreciava Getúlio). Ela foi então à casa do outro vizinho pedir para usar o telefone.  Voltou mais agitada, quase chorando. O telefone do pai não respondia e o vizinho dizia que muitos edifícios no centro de Porto Alegre estavam queimando.  Se eu não estivesse ali, presa à cama, a mãe teria ido buscar o pai com seus pés e mãos. Então, acho que sem querer eu talvez tenha salvado a vida dela.  Ninguém morreu naquele dia, mas é um pensamento bom para uma filha ter.

A manhã foi indo a passo de lesma, a mãe sentou na beirada da minha cama e olhava para o chão, a cabeça meio caída, fungando de vezem quando.  Meucorpo desmilinguido estava dominado por uma bola que subia e descia. Eu não queria olhar pra ela e ver lágrimas. Ver a mãe chorar dava muito medo. Ô manhã tartarugosa. Não andava.

Barulho na fechadura. Saltamos as duas. Enrolei-me no cobertor a tempo de ver o pai entrando com a roupa toda chamuscada, parecia um carvão. A mãe foi firme na direção dele, ficaram ali abraçados.

O pai sentou na poltrona, acendeu o cigarro e teve um violento acesso de tosse.  A vizinha começou a gritar no muro por notícias. A mãe correu pra janela avisar que o pai estava em casa, todo queimado, as roupasem frangalhos. Disseque ele tinha descido três andares pelas escadasem chamas.  Houvefogo na sede do PL. A vizinha veio e com a mãe deitaram o pai na cama, limparam as feridas do rosto e colocaram uma pomada amarela, Picrato. Milagrosa. Difícil de encontrar.

Todo amarelo, todo encarvoado, o pai dormiu assim mesmo.  A gente não sabia o que fazer. A mãe ligou o rádio. Havia esquecido, na afobação.  Falavam de quebra-quebra na Salgado Filho, na Rua da Praia, jogavam os móveis e máquinas dos escritórios pelas janelas. Era tudo muito confuso. Os jornalistas do rádio, naquela situação, pareciam estar irradiando uma partida de futebol e não o suicídio do chefe da nação, aos gritos, sem acertar as ideias.

Alguns dias depois, o irmão do pai, o único na família que tinha um automóvel veio à nossa casa e nos levou para vermos os destroços.  Eu ainda tinha muita febre. O que vimos foi demais para nossa sensibilidade ingênua. Em certos lugares os móveis ainda fumegavam. Os escombros eram altos; as cadeiras retorcidas, folhas e mais folhas de papel ardiam pelo chão. Olhando para o alto, algumas paredes estavam enegrecidas, portas haviam sido derrubadas com fúria.

Naqueles dias dos meus oito anos, o caudilho enveredou para a  eternidade enfrascado num inacreditável pijama listado.

***

Maria Regina Jacob Pilla nasceu em Porto Alegre, foi militante do Partido Operário Comunista (POC) no Brasil e do Partido Revolucionário de los Trabajadores  (PRT) na Argentina durante a ditaduras militares desses países.  Esteve exilada de 1970 a 1992. Atualmente estuda Letras na UFRGS e conclui um livro de memórias de onde foi tirado o presente texto.


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O velho provérbio das montanhas…

20 de setembro de 2011
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Não existe um velho ditado que diga: quando achamos a maior montanha, todas as outras mudam de tamanho. Mas deveria haver. Por ele eu tentaria explicar como foi o show de Maria João e Mário Laginha no Porto Alegre em Cena.

Posso citar aqui a rápida trajetória da intérprete, que tornou público seu talento há pouco mais de vinte anos – a artista tinha 27 – e hoje é uma referência como cantora de jazz e dos demais gêneros. Também posso contar da longa parceria de Laginha e João (como as pessoas mais íntimas tratam Maria), que rendeu discos saborosos como Chocolate (2008), álbum que dá nome espetáculo. Nada disso, porém, corresponderia ao assombro de assistir a uma fabulosa mistura de quatro continentes de musicalidade, técnicas orientais cênicas e respiratórias, um espectro vocal muito extenso e afinadíssimo, além de uma variação de timbres que impressiona mesmo as pessoas mais acostumadas.

Mário Laginha, premiado pianista português, foi tecnicamente impecável, muito sensível e de ótimo gosto nos improvisos e acompanhamentos. Em alguns momentos do espetáculo, soube muito bem ser protagonista, chegando a ser aplaudido pelo público num de seus improvisos mais inspirados. Já Maria João é, de fato, aquela grande montanha de que falei na primeira linha. Assisti-la cantar é reconhecer facilmente que Billie Holiday e Ella Fitzgerald tiveram continuidade nas terras d’além-mar, em especial, nas canções “Parrots and lions” e “Beatriz”, que demorarão a deixar os meus ouvidos – não é a primeira vez que olhares longe da origem e do centro revigoram uma arte secular.

Assim que as primeiras notas do espetáculo soaram, me esqueci por um instante que já tinha ido a shows de outras cantoras. Trata-se do poder da arte verdadeira em construir momentos absolutos. Que as outras montanhas desculpem meu entusiasmo, mas nunca estive tão perto de um artista maior.

(publicado no jornal Zero Hora, 08 de setembro de 2011)


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Eu não vim fazer discurso

8 de setembro de 2011
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PROMOÇÃO TROMBONE-RECORD: cite um discurso que foi importante na tua vida e por quê, e concorra ao novo livro de Gabriel García Márquez, Eu não vim fazer um discurso. O Trombone escolherá um dos comentários feitos entre 08/09 e 15/09, premiando o autor com um exemplar da obra.

Não sei se há obra de fôlego sobre a estrutura dos discursos, esse tipo de texto tão peculiar feito para ser falado em público, mas escrito no silêncio privado. É de uma variedade deliciosa de discursos que se compõe o novo livro de García Márquez, Eu não vim fazer um discurso, que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Record. Que ali há mais aspectos do escritor do que no narrador de seus romances, não há dúvida, mas não podemos perder de vista a construção inevitável de uma persona, sobretudo a alguém declaradamente avesso a discursar.

A seleção preparada por Cristóbal Pera é de amplo espectro, indo desde um discurso de formatura no Liceu (para uma classe um ano superior à sua), em 1944, até sua fala em um Congresso Internacional de língua espanhola em homenagem ao escritor, realizado em 2007. Por isso, somos capazes de perceber ao longo do livro, um amadurecimento gradual do escritor e do homem público – o que é reconhecido pelo próprio García Márquez (p.117) – e podemos recolher algumas preciosidades.

A primeira delas que gostaria de comentar é “A solidão da América Latina”, discurso proferido na premiação do Nobel, em Estocolmo, 1982. No todo, trata-se de uma fala profundamente sensível aos problemas de nossa parte da América, seu déficit em relação ao centro do mundo e suas aspirações próprias, que não necessariamente passam pelos moldes europeus ou estadunidenses. Do alegórico, Márquez traça algumas semelhanças em como os primeiros cronistas europeus nos viram e como a visão deturpada seguia (ou segue) sendo uma nota dominante na apreciação de nosso povo.

A segunda preciosidade, dentre outras que poderia citar, é intitulada “Meu amigo Mutis” e foi lida por Gabriel García Márquez na noite de aniversário de 70 anos do amigo, em 25 de agosto de 1973. Um conjunto de histórias acerca de Álvaro Mutis que revelam tanto o espírito aceso do poeta colombiano, quanto o bom humor e o poder de observação do ganhador do Nobel. Da forma como foi presenteado com um exemplar de Pedro Páramo pelo amigo ao dia em que quase morreram juntos num acidente de carro na Europa, são muitas as pinceladas de Márquez que colorem ao mesmo tempo quadro e pintor.

Ao leitor mais afeito a um olhar de conjunto, também é possível notar nos discursos o engajamento do escritor a diferentes causas (relação Colômbia-EUA, o crescimento da violência, cultura latino-americana, desarmamento nuclear etc.), aspectos da vida pessoal de García Márquez e até certos equívocos puristas, ao condenar, por exemplo, o tempo do gravador na profissão jornalística, ou linguísticos, ao vaticinar um grande futuro à língua espanhola por sua “dinâmica criativa”. A prova, enfim, da riqueza do livro são as maneiras diferentes de abordá-lo de forma interessante.

A obra que li e gostaria de compartilhar não tem, claro, a pujança de Cem anos de solidão ou Amor nos tempos do cólera. A comparação chega ao ridículo, ainda mais para mim, que as li em épocas tão especiais da vida e por puro gosto. Mas também é maravilhoso brincar de achar e perder o escritor tímido, capaz de dizer, num discurso: “eu comecei a ser escritor da mesma forma que subi neste palco: à força”. Colocar-se um pouco mais à frente no teatro, em relação ao escritor, do que aquela cadeira ao fundo da leitura dos romances, onde há sempre um narrador a quem tocamos no ombro para poder ver o palco, se for este o caso.


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Seção pitaco: pra quem é o filme?

26 de agosto de 2011
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(Estreio neste post a seção pitaco. Não que os outros, feitos com mais vagar, não o sejam, mas a ideia é que estes tenham especialmente o descompromisso intuitivo que compõe os pitacos. Em geral vão girar em torno de um tema – apontado no título -, mas nada impede o salto adjacente ou distante. Monólogo de bar (café, porque não bebo), algo estruturado e feito texto. Lá vamos.)

* Assisti nesta semana ao último, ou mais recente (a depender do acaso), filme produzido por Spielberg: Super 8. Pas mal, sobretudo nos primeiros quarenta minutos. Ali está a energia encantadora de E.T., o extraterrestre (1982) e Goonies (1985), este dirigido e aquele produzido por Spielberg. Depois as amarras se soltam e tudo descamba para uma ficção científica pouco verossímil. Além das questões mais miúdas de enredo, fiquei incomodado com aquela pré-adolescência representada no filme (hoje nem sei se existem mais pré-adolescentes e, sim, o filme se passa na década de 80, é quase um “filme de época”, como disse um amigo). Apaixonados por cinema, aventureiros (no bom sentido do termo), virtuosos… Esta é a representação dileta do jovem dos anos 80 para o jovem dos anos 80, sr. Spielberg. Hoje o máximo que aconteceria – seguindo o argumento do filme – seria ver os meninos evacuando a cidade com seus Ps12 debaixo do braço. Tá, mas poderia ser um agrado a seus velhos fãs, saudosos do tempo em que ainda havia mistério no mundo. Não, não poderia. Os atuais alto-trintões ou baixo-quarentões percebem a distância de seus filmes preferidos e a atual produção do diretor. Tentando fazer a síntese em conversa com minha namorada, achei uma boa pergunta: “então pra quem é o filme?”, eu disse pra ela. “Pra ele mesmo, ora. Que pergunta!” – ela me respondeu, brilhantemente.

* Ontem estive na nona edição do Cabaré do Verbo na Casa de Cultura Mário Quintana. Parabéns ao grupo por estar agitando a cena cultural da cidade! Noite muito agradável no geral. Nossa, como sou apaixonado pela boa arte circense! O movimento. O imediato. O funciona ou não funciona. Nós dos livros e da academia via de regra vamos distantes desse tipo de arte, um desperdício. É preciso cuidado para não sermos extremamente estúpidos em nossas inteligências! (Fica meu voto de lapidação – pelo notável talento bruto – do Tamanco no Samba e de expansão do espetáculo muito sensível, “Tirando da Gaveta”, da Cia Circular).

* Último pitaco: o Iel lançou o Prêmio Moacyr Scliar, criado para premiar os melhores livros de poesia e contos (em anos alternados) publicados no Brasil em língua portuguesa. Os valores: R$150.000,00 para o melhor livro e R$30.000,00 para a editora que o publicou. Para mim, trata-se outra vez (porque é muito comum) de boa intenção mais ou menos inteligente no campo da cultura. Por quê? Porque dificilmente será premiado alguém diferente dos sempre e com justiça agraciados. Um edital que distribuísse cinco prêmios de 30 e 6 mil, respectivamente, seria uma ação muito mais incentivadora do que esta. Até mesmo setenta e cinco prêmios de 2 mil reais teriam um efeito melhor (com os autores podendo utilizar a verba para edição de seus novos livros). Em busca do estardalhaço do valor estupendo, do orgulho de quem enxerga cultura de dentro da prisão do corpo, vamos receber a Adélia Prado ou o Ferreira Gullar (ótimos poetas e merecedores de louros, repito!), dar-lhes o dinheiro e agradecê-los por suas obras.


o micróbio do samba

22 de agosto de 2011
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Retomo as rédeas deste blog pelo motivo óbvio: uma absoluta falta de tempo! Não há razão mais justa para acrescentarmos uma prática na agenda do que não ter tempo para mais nada. Celebrando este retorno, comento (mesmo que brevemente) o mais recente cd de Adriana Calcanhoto, o micróbio do samba (2011).

A proposta em si já é muito boa: fazer um cd basicamente de samba, esse imenso gênero guarda-chuva (como o rock) que permite construir uma unidade coesa, mas variável, moderna e, ao mesmo tempo, tradicional. Nas palavras da cancionista, em entrevista para a Tv Cultura, o gênero sempre esteve entremeado a seu trabalho e foi a vez, palavras minhas agora, de Calcanhoto compor a partir dele e não através dele. De maneira geral, o cd é de audição muito agradável, mas gostaria de discutir aqui algumas questões para dar matéria mais consistente a eventuais conversas a respeito.

O primeiro mérito notável do álbum são certamente seus arranjos. Com produção de Daniel Carvalho, desde a primeira faixa, “eu vivo sorrir”, os instrumentos (e efeitos) se movem sempre em direção às canções e não a revés elas. Entende-se, e muito acertadamente a meu ver, que a mensagem na canção passa pelos instrumentos, mas não pode se encerrar neles, ao custo de poder atrapalhar o bom entendimento da entoação (em especial nestes tempos de espectadores dispersos). Outra lição (assimilada e dada) pelo cd sambístico de Calcanhoto é que há roupagens novas interessantes para o samba e isso não passa por descartar as estruturas de Noel Rosa, Paulinho da Viola ou Lupicínio Rodrigues (conterrâneo que a cancionista cita no encarte e de quem extrai o título do álbum), mas por intensificá-las. Afinada a Caetano, a Los Hermanos e a outros poucos (em terça, quinta, talvez, não uníssona), seu samba é extremamente vivo e convida a uma leitura contemporânea e orgânica.

Como indícios dessa continuidade atual, estão alguns recursos cancionais que a artista lança mão, como, por exemplo: a rima toante e a proximidade lexical no verso “pro caso do acaso estar inspirado” (a rima é com elevador), a síncopa e a malandragem no canto de “e emaranhar por capricho”, a alteração sob controle da sílaba tônica e o neologismo de “deverá desbotar, desimportar”, o trocadilho graciosa de “aquele plano para me esquecer / esqueça”; todos mobilizados com grande desenvoltura pela compositora.

Mas como nem tudo cheira bem no reino da Dinamarca, há um teto temático bem demarcado na canção atual e que, acredito, também incomoda a estética atual de Calcanhoto (lembro que suas canções já foram mais abusadas, no bom sentido). Ninguém mais fala do amor, mas do estar amando. Ninguém comenta a coragem, mas o ato heroico. Ninguém se arriscar a teorizar os grandes temas, mas prefere tratar da concretização desses temas na vida cotidiana, em casos, fatos,  exemplos, perspectivas etc. Na minha pequena opinião, não precisamos mais levar tão a sério a lição pós-moderna, certo? Sobretudo para alguém com formação sólida e bastante envolvida no mundo literário contemporâneo como a artista, vale o passo rumo a uma abstração maior em suas canções. E acho que faria muito bem para sua obra e para seus fãs ela dar esse passo.

Também como crítica, mesmo com as pequenas pérolas “aquele plano pra me esquecer” e “beijo sem”, e as boas canções “já reparô?” e “deixa, gueixa”, uma seleção mais atenta do repertório do álbum poderia ter sido feita. Alguns versos enfraquecem boas canções do cd e “pode se remoer” chega a ser constrangedora de tão modesta.

De todo modo, espero sinceramente que esse micróbio do samba se espalhe e mais cancionistas retornem ao gênero com suas leituras e versões (Zeca Baleiro, Arnaldo Antunes [sem os Tribalistas - tá bom, sem o Carlinhos Brown pelo menos] e Vitor Ramil são alguns dos artistas que eu gostaria de ouvir contaminados). Ficam sentimentos e sensações felizes das duas semanas em que convivi com o micróbio do samba, de Adriana Calcanhoto. Só de ser feito para ser arte, já se torna muito diferente de noventa por cento do que compõe o campo da arte contemporânea deste país.


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O melhor romance de Chico

12 de março de 2011
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Digo de começo que não sou um entusiasta pelo Chico escritor. Já tinha lido Budapeste, Benjamim e cem páginas de Leite Derramado, que não consegui terminar porque as incongruências na construção do narrador começaram a me irritar, até que meio por acaso me caiu na mão o romance Estorvo e preciso dizer: aí está o grande romance do filho mais célebre dos Buarque de Holanda!

(Vale dizer que sei que sou minoria quanto às críticas à obra literária do Chico e que aqui, obviamente, não abarco o cancionista, simplesmente o maior compositor popular da história de nossa cultura, com sobras.)

No romance, sempre em primeira pessoa e no presente (o narrador narra o que lhe acontece no momento em que acontece), acompanhamos a história de um filho de boa família que supostamente não manteve o bom padrão de seus pais e recebe deles um misto de comiseração e afeto, por sua postura de “artista”. Um personagem, aliás, muito adequado para que, por meio dele, Chico construa o que acredito ser a linha principal do romance: a representação de uma sociedade em que tudo se ajeita. Não se trata, é bom dizer, do jeitinho brasileiro como estamos acostumados em Memórias de um sargento de milícias ou O auto da Compadecida. É algo mais moroso, menos ativo, como se as pessoas esperassem o fato para se adequar a ela. Algo bem diferente, em representação e contexto, da ideia do arrivismo e da busca da melhor oportunidade (seria Chico modulando o conceito do pai?).

Por essa chave, nada é irremediável no contexto do romance. Alguém bate à sua porta? Deixe-o lá e, enquanto ele for falar com o parteiro, escape por outra saída. Precisa de dinheiro? Use as joias que sua irmã guarda e que só usa mesmo em suas viagens para o exterior. Vá para a antiga família da fazenda e, mesmo estando tomada por crianças, um velho aliciador e alguns traficantes, ache seu canto, adormeça. Tomou uma facada, possivelmente por engano, de um homem no ponto de ônibus? Vá para casa, quem sabe sua mãe e irmã não tenham uma boa saída para seus problemas. É tudo uma reação às peripécias que vão se seguindo ao longo do enredo.

Além desse, que me parece o centro do romance, um intenso movimento de vertigem tabela com essa adequação constante das personagens. Em certas passagens, não sabemos se o que é narrado realmente ocorre ou se não passa da imaginação e das conjecturas do protagonista. Reforçado pelos ambientes absurdos da fazenda, da visita inesperada do homem (ecoando O processo, de Kafka), da mãe cheia de manias ao atender o telefone, da violência do assalto à casa da irmã do narrador, Chico cruza inúmeras vezes, e de ambos os lados, essa linha do que podemos asseverar existir. A essa característica atribuo à sensibilidade impressionante do artista: não vivemos momentos em nossas vidas em que precisamos de um segundo momento para estarmos seguros de ser verdade? E normalmente esses momentos não são momentos ruins? Chico escreve seu romance entre o revés e a certeza do revés.

Contudo a minha principal crítica ao romancista carioca se mantém em Estorvo, embora me pareça aqui bem mais sutil do que nos outros romances dele que li. Talvez por ser um apreciador há anos de sua obra cancionística, talvez por ser mesmo um leitor para lá de casmurro, não resolvo muito bem a semelhança tão grande entre a voz e as imagens do narrador e a voz e as imagens do compositor popular. O jeito de humor, as cenas de romance, as fotografias da elite, às vezes tenho até a sensação de que trechos colam em versos de algumas canções de Chico. O pior é que suspeito que seja essa semelhança que desperte a admiração dos atuais leitores que o premiam (entre 50 e 70 anos). Os apaixonados, vivencialmente apaixonados – o que é muito maior do que minha paixão de turista, nascido vinte anos depois -, pelas canções do compositor, que entreveem nas narrativas um desdobramento qualificado das primeiras. Para meu gosto neófito, gostaria ao menos que ele ironizasse ou subvertesse essa identidade, como faz o Paul Auster de Noite do Oráculo, em vez de ficar me provando que aquele narrador (como acontece bem mais fortemente em Benjamim, Budapeste e Leite Derramado) não é o próprio Chico. Porque é.

“Pão ou pães é questão de opiniães” e aqui fica a minha. Seu destino esperado é morrer dentre tantas outras que já foram ditas a respeito deste romance de Chico. Se servir para discussão, valeu o trabalho. Se iluminar pontos para aqueles que estudam com afinco a obra literária de artista carioca, ainda melhor (melhor?). “E vão construindo telhados”.

p.s.: este breve ensaio deve um tanto ao artigo de Roberto Schwarz sobre o tema em Sequências Brasileiras.


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Truffaut é um gênio, nos afastemos dele!

19 de janeiro de 2011
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Com o perdão do começo retórico (onde arrisco perder os leitores mais inteligente, que não se agradam de populismos discursivos), acabo de assistir novamente a uma obra-prima: Idade da Inocência (L’argent de poche), de 1976. O filme, dirigido por Truffaut e escrito por ele, juntamente com Suzanne Schiffman, é um retrato muito sensível e acurado de diversas fases da infância, do menino que começa a falar e dar sentido ao mundo, até o limiar de idade quando se aprendem as nuances do apaixonamento e das relações amorosas. Também assistimos à impetuosidade dos pequenos, à violência dos adultos e às muitas relações e fantasias que compõem uma das nossas fases prediletas da vida (não?).

Com a memória ainda fresca deste filme (e gritos constantes: vejam o filme! Vejam o filme!), volto meus esforços de interpretação para Os incompreendidos (Les quatre cent coups, 1959), Jules e Jim (Jules et Jim, 1962), Beijos proibidos (Baisers volés, 1968), entre outros, e percebo que posso indentificar no cineasta francês certa matriz (como dizer) muito comum hoje em dia e da qual muitos se valem para ganhar o crachá de artista. Em linhas gerais, trata-se do movimento de olhar para aquilo que o ritmo frenético da cidade e dos tempos modernos (ops) não nos deixa captar em plenitude. Pronto, lá está o cancionista, o poeta, o romancista, o contista, o malabarista, quem quer que seja fazendo da tua obra um inventário de tudo que o grosso da humanidade não viu, e não vai ver, de hoje até o dia de suas mortes. Amém! (Não me regozijo com isso, obviamente, e defendo, da linha de frente, quaisquer mudanças).

Ótimo! Não, não, ótimo mesmo. O tom de ironia, um pouco exagerada, ficou para lá da foto. A começar pelo genial François Truffaut, é ótimo que grandes espíritos do século XX tenham se empenhado e venham se empenhando neste movimento de pêndulo para acusar o que deixamos pra trás com nossa pressa. Não é que tudo vale revisão, mas uma boa parte sim e quase ninguém está interessado em revisar coisas com tanta modernidade. Minha questão, e agora explico em parte a provocação do título, é que muitos artistas acreditam sinceramente que basta fazer isso para resolver o problema (que problema?). Esquecem-se das tomadas, dos recortes precisos de roteiro e de cena, das atuações boas e/ou naturais incetivadas ou deixadas pelo diretor, do recuo ante o sentimentalismo, da fusão ou alteração de beleza e consternação, cena a cena, do ritmo da estrutura.

Trazendo para a minha cova de palmos medida, o viés do olhar é só o começo do poema, não seu fim – com o poeta perseguindo seu insight original – nem sua forma acabada. Um poema sucinto deve ser o resultado de um extenso processo de síntese, não a matéria em estado bruto. A linguagem, as figuras de linguagem, os sons, as imagens poéticas, a visualidade do poema etc. estão para nossas técnicas como as técnicas cinematográficas estão para Truffaut. Seu domínio com maestria constróem o talento do cineasta francês, que a tudo isso soma a capacidade de um olhar diferenciado.

Aos criadores e apreciadores de arte, vale ganharmos horas de nosso tempo a entender as chaves formais que nos deram alguns artistas únicos: Dante, Da Vinci, Cervantes, Mozart, Goethe, Machado, Nietzsche, Baudelaire, Dostoiévski, Pessoa, Guimarães Rosa, Buñuel, Truffaut, Chico Buarque (na canção), dentre outros; mas a mesma atenção que nos levas a estes caras deve servir para nos afastar deles com rapidez -  no caso dos criadores. A chave que encontraram para representar o mundo (“trouxeste a chave?”) é fruto de suas reflexões formais e do mundo em que viveram, não nos servem. Não sei se digo o óbvio, mas como dizer é um privilégio, abuso este eco. Truffaut é um gênio, nos afastemos dele!

P.s.: No fim, não sei se fiz uma apreciação da obra do cineasta, como gostaria, ou uma espécie de reflexão sobre o fazer artístico.


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    Biografia

    Poeta dos livros "zero um" (2010), "Poemas Lançados Fora"(7Letras, 2007), "Sintaxe da Última Hora" (Scortecci, 2006) e "Reflexos" (FEME, 2000), além de premiado em concursos literários e presente em diversas coletâneas de poesia. Indicado ao Prêmio Açorianos (Categoria Poesia) no ano de 2010.

    Co-roteirista dos filmes de curta-metragem "Estado Senil" (2009), "Revés" (2008) e "Bons sonhos, Maria"(2006).

    Argumentista da personagem Júlio César, publicado em setembro de 2010 pela revista independente "Eixada" e em julho de 2011 na coletânea "O melhor da festa, volume 3".

    Linguista pela Unicamp, especialista, mestre e doutorando em Literatura Brasileira pela UFRGS. Atualmente trabalha como professor temporário de Literatura Brasileira na UFRGS.

    www.gutoleite.com.br

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