Texto publicado no caderno “Cultura” da Zero Hora, 26 de novembro de 2011.
Falar de Chico Buarque não é fácil. Por um lado, trata-se de um enorme artista, aqui entendido como alguém que domina os meios de sua arte e que foi capaz de fazer na canção uma síntese representativa de algum elemento profundo de nossa cultura (não há muitos desse tipo por aí). Por outro lado, o nível de devoção de seus admiradores beira a fé religiosa, tornando difícil, mesmo entre pessoas esclarecidas, colocar qualquer ressalva quanto a qualquer parte de sua obra (inclusive estendendo essa autoridade simbólica aos campos do romance e do teatro). Foi nessa esteira que aceitei o desafio e a delícia de analisar “Chico”, o novo álbum do cancionista.
É um gastar à toa dos teus olhos, leitor, comentar a excelência musical deste trabalho. Com direção e arranjos de Luiz Cláudio Ramos, que acompanha Chico há muitos anos, tudo faz muito sentido musicalmente. Da escolha dos instrumentistas à maneira orgânica como o álbum foi gestado, a parceria não abre mão de uma qualidade impecável. Chamo a atenção, pontualmente, para o arranjo de “Nina”, oitava canção do CD, onde violoncelo e acordeão conversam talvez reproduzindo o envolvimento do eu-lírico com a personagem-título; ou para a mescla de violino e piano em “Essa pequena” (aliás, duos que parecem ecoar para dentro do álbum como uma representação instrumental do amor, tema que predomina em “Chico”). Nota não muito feliz, e só mesmo uma nota, para a escolha de “Sinhá” (Chico Buarque/João Bosco) como encerramento. Além da forma exótica e de baixa rotação poética do tratamento da escravidão, o desfecho coincidente (“E assim vai se encerrar / O conto de um cantor…”) acaba por esvaziar as duas unidades, a canção e o álbum.
Tampouco o leitor me verá aqui desperdiçar-nos na discussão do talento de Chico em “Chico”. Segue o encantamento muito, mas muito, acima da média do que temos por aí. Talvez afinado a certa tendência na MPB séria, as entoações (melodia + letra) estão ainda mais sofisticadas, dificultando o ouvido que, por pressa, se adianta na audição da canção. Ainda estão presentes belos achados poéticos, como “De volta a [sic] casa, recolhi um cão / Que de hora em hora me arranca um pedaço” (“Querido diário”), “Gravei na memória / Mas perdi a senha” (“Barafunda”) ou “Nina anseia por me conhecer em breve / Me levar para a noite de Moscou / Sempre que esta valsa toca / Fecho os olhos, bebo alguma vodca / E vou” (“Nina”). Outra nota destoante, de ressalva, para o verso “Amar uma mulher sem orifício” (“Querido diário”) e alguns deslizes nas letras das músicas no encarte. Parece coisa de conservador turrão, mas se as letras do Chico têm notável qualidade poética, e têm, é preciso ter no encarte um cuidado maior.
Bom, meu amigo, o que resta então para falarmos do “Chico”? Uma coisa talvez… e sinto que seja essa uma das tensões daquela questão inicial, relembro, que se trata de um grande artista há décadas e que isso torna quase impossível discuti-lo. Pois lá vai: qual é a representatividade hoje da atual obra de Chico Buarque? Ou seja, você se identifica? Quer dizer: Chico diz aquilo que você gostaria de dizer do jeito que você diria se pudesse? Olhe para os lados: os últimos álbuns do Chico representam seus pais? Seus filhos? Seu companheiro? Companheira? Amigos? Colegas de trabalho? Desculpem-me o excesso de perguntas, mas… por que os últimos cd’s do Chico representam ou não as pessoas que você considerou na tua análise?
Antecipando meu argumento ao professor Luís Augusto Fischer, daqui pertinho, do “Pesqueiro”, ele me relatou a ansiedade com que se esperava um novo trabalho de Chico Buarque. Como um “intérprete do Brasil” (LAF), claro, todos queriam saber de que forma ele estava lendo o país. Por exemplo, em “Pelas tabelas” (1984), repleta de elementos do processo de redemocratização brasileira – exemplo do professor Fischer – ou em “Feijoada completa” (1977), mais cifrada, anunciando uma anistia inevitável para os anos seguintes. Mas e agora? Ainda ouvimos “Chico” esperando entender mais sobre este mundo brasileiro que nos cerca?
Não sei se sim, mas – voltando ao álbum – há interpretações importantes do artista sobre assuntos bem contemporâneos. A mais acertada delas, na minha audição, “Rubato”, traz três eu-líricos distintos que chamam suas respectivas musas para ouvir a canção: o primeiro a compôs (mas tem medo que outro a roube), o segundo a roubou (e também está com medo) e o terceiro nada comenta a respeito, mas alardeia ser aquela a sua última canção – o toque de humor está nas musas que rimam: Aurora, Amora, Teodora; além do tratamento rocambolesco do caso. Em segundo plano, a discussão sobre a autoria confiável em canção popular e os reconhecimentos oficiais possíveis (o songbook, a televisão e o espetáculo aparecem na canção). De fundo, a velocidade com que a canção de um vira de outro e mesmo as mulheres se misturam, num ritmo de mudança pra lá de estonteante em somente três estrofes.
(Em contrapartida, uma canção como “Tipo um baião”, em que pese a beleza do arranjo e do Gonzaga surgindo no último verso, soa quase como aquela mãe que simula a gíria dos filhos para se enturmar).
Antes que os beatos se inflamem, professo que ao menos uma canção do álbum terá lugar no disputado panteão das melhores canções do artista: “Essa pequena”. Um blues que parece simples na oposição de um amante maduro a uma amante mais jovem, mas que guarda imensa sofisticação na construção das rimas, além de muita sinceridade no tratamento do tema. Quase podemos ver o homem que racionaliza a diferença de idade e os percalços que isso lhe trará, mas é “tão feliz com ela” que não pode se conter. (Se puderem, reparem no “ai” do décimo segundo verso, é nesses detalhes que “Chico” é Chico). No fim, ainda me diz: “O blues já valeu a pena”. Valeu nada, eu duvido, os anos que o eu-lírico gostaria de passar com sua pequena não são pagos por um blues, mesmo dos melhores – e isso está no tom da canção (e talvez na escolha do blues como gênero).
Lembra daquela questão de representatividade? Então, quando Chico elabora sinceramente suas impressões e sensações, como é o caso de “Essa pequena” (ou “Sem você 2”), ele é todo mundo na vastidão de sua humanidade, e por isso me representa. Quando busca outras dicções, e há outras dicções no álbum, reconheço o exímio cancionista (o melhor de todos?), mas não me reconheço – enquanto outros se reconhecem. Entender a trajetória dessa representatividade talvez seja um bom caminho para começar a ouvir bem o “Chico”.
Guto Leite,
Poeta e doutorando em Canção Popular (UFRGS)
Talvez tenha sido a melhor crítica que eu li sobre o “Chico” do Chico Buarque de Holanda.
Como você sabe, eu sou muito “fã” do Chico e concordo com todos os elogios que você fez a ele (como crítico). Sobre a representatividade do Chico, acho que além de seu talento, reverbera o fato de que ele talvez seja o cantor daquela época de protestos que permanece em suspensão, mesmo estando fora da mídia. Talvez a crítica se lambuse em elogios e se deleite por uma nostalgia doentil de um Brasil mais irônico, lírico, satírico e de protesto que hoje parecem perdidos na ditadura militar. Chico aparece como a voz dos que desapareceram… a voz de Gerando Vandré, a voz do Chico de 60, 70 e 80, a voz dos festivais…
Acho que o fato mais obscuro sobre o Chico é a crítica brasileira e a confusão entre a pessoa e o artista por trás do Chico (que aparece nas capas de CD e de revistas):
Por exemplo:
http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/herald/cultura/bilhete-de-chico-buarque-a-diarista-e-considerado-magistral
Chico fala: “Socorro, por favor deixa um guisadinho de abóbora com carne para o fim de semana. Obrigado, Chico.”
A crítica fala, entre outras coisas: “A tensão é quase insuportável”.
ahn?
…
Socorro digo eu! Socorro!
Fiquei abismado com as “críticas sobre o bilhete”!
O que é isso? É o cubo mágico… para onde você vira ele é colorido e dá o que falar. Sempre forma uma imagem na mente dos criativos, unicamente fantástica. Acho essa tietagem jornalística e até da crítica brasileira simplesmente ridícula.
De repente se a gente começar a escrever textos assinando “Chico Buarque” a gente fica famoso e os nossos textos vão ser os melhores?!
Acho o samba barafunda imortal! Tem muitos traços interessantes da genialidade do Chico, da brincadeira com as palavras e a melodia, e imagens muito interessantes, por exemplo: “Antes que o whiski do esquecimento/Baixe seu manto cinzento” é fenomenal!
Comentário por Hermano Gomes Lopes Nunes — 5 05UTC dezembro 05UTC 2011 @ 11:33
Guto!
Tudo o que posso dizer, agora: maravilhoso seu texto! Pontua, com propriedade, a questão Chico (e poderiam ser vários “Chicos”, não?!), fazendo interessantes reflexões acerca das letras e da própria representatividade de Chico. Há coisas que estão rodando na cabeça, que rpeciso pensar…mas me causaram perturbação e isso é incrível!
Acho que essa questão da representatividade buarquiana foi tocada em entrevista dada pelo próprio Chico à revista Rolling Stones de outubro. Vale a pena a leitura!
Abraço, meu caro, e parabéns pelo texto!
Comentário por Thata Albieri — 2 02UTC dezembro 02UTC 2011 @ 10:27