Se eu fosse um pouco mais velho e dissesse a vocês: guardem bem os teus prazeres, pois não são muitos; certo que me dariam muito mais atenção do que agora. Um desses poucos mas ilimitados prazeres de que me tenho valido advém da presença costumeira de Maria Regina Jacob Pilla no café do Instituto de Letras da UFRGS. O texto que publico abaixo saiu ontem na Folha de São Paulo e, de minha modesta mirada, é das prosas mais vigorosas com que tomei contato nos últimos tempos!
24 de agosto de 1954.
Estava com febre e coceiras pelo corpo. Varicela disse o médico, Dr. Enio Pilla, de sorriso aberto, vozeirão, um homem bonito que entrava pela casa escancarando portas e janelas.
24 de agosto, é dia do meu aniversário. Eu ali, na cama, debaixo dos acolchoados, sem poder falar com as outras crianças. Acordada, me revirava entre os cobertores naquela manhã de inverno. Foi quando a vizinha chamou a mãe e falou aos gritos que Getúlio se suicidara e que havia um quebra-quebra no centro da cidade. A mãe ficou esbaforida por causa do pai (no andar inferior ao escritório dele, estava a sede do Partido Libertador, do nosso parente Raul Pilla, gente que não apreciava Getúlio). Ela foi então à casa do outro vizinho pedir para usar o telefone. Voltou mais agitada, quase chorando. O telefone do pai não respondia e o vizinho dizia que muitos edifícios no centro de Porto Alegre estavam queimando. Se eu não estivesse ali, presa à cama, a mãe teria ido buscar o pai com seus pés e mãos. Então, acho que sem querer eu talvez tenha salvado a vida dela. Ninguém morreu naquele dia, mas é um pensamento bom para uma filha ter.
A manhã foi indo a passo de lesma, a mãe sentou na beirada da minha cama e olhava para o chão, a cabeça meio caída, fungando de vezem quando. Meucorpo desmilinguido estava dominado por uma bola que subia e descia. Eu não queria olhar pra ela e ver lágrimas. Ver a mãe chorar dava muito medo. Ô manhã tartarugosa. Não andava.
Barulho na fechadura. Saltamos as duas. Enrolei-me no cobertor a tempo de ver o pai entrando com a roupa toda chamuscada, parecia um carvão. A mãe foi firme na direção dele, ficaram ali abraçados.
O pai sentou na poltrona, acendeu o cigarro e teve um violento acesso de tosse. A vizinha começou a gritar no muro por notícias. A mãe correu pra janela avisar que o pai estava em casa, todo queimado, as roupasem frangalhos. Disseque ele tinha descido três andares pelas escadasem chamas. Houvefogo na sede do PL. A vizinha veio e com a mãe deitaram o pai na cama, limparam as feridas do rosto e colocaram uma pomada amarela, Picrato. Milagrosa. Difícil de encontrar.
Todo amarelo, todo encarvoado, o pai dormiu assim mesmo. A gente não sabia o que fazer. A mãe ligou o rádio. Havia esquecido, na afobação. Falavam de quebra-quebra na Salgado Filho, na Rua da Praia, jogavam os móveis e máquinas dos escritórios pelas janelas. Era tudo muito confuso. Os jornalistas do rádio, naquela situação, pareciam estar irradiando uma partida de futebol e não o suicídio do chefe da nação, aos gritos, sem acertar as ideias.
Alguns dias depois, o irmão do pai, o único na família que tinha um automóvel veio à nossa casa e nos levou para vermos os destroços. Eu ainda tinha muita febre. O que vimos foi demais para nossa sensibilidade ingênua. Em certos lugares os móveis ainda fumegavam. Os escombros eram altos; as cadeiras retorcidas, folhas e mais folhas de papel ardiam pelo chão. Olhando para o alto, algumas paredes estavam enegrecidas, portas haviam sido derrubadas com fúria.
Naqueles dias dos meus oito anos, o caudilho enveredou para a eternidade enfrascado num inacreditável pijama listado.
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Maria Regina Jacob Pilla nasceu em Porto Alegre, foi militante do Partido Operário Comunista (POC) no Brasil e do Partido Revolucionário de los Trabajadores (PRT) na Argentina durante a ditaduras militares desses países. Esteve exilada de 1970 a 1992. Atualmente estuda Letras na UFRGS e conclui um livro de memórias de onde foi tirado o presente texto.