Trombone: Blog de Crítica de Arte em Porto Alegre

O velho provérbio das montanhas… | 20 20UTC setembro 20UTC 2011

Não existe um velho ditado que diga: quando achamos a maior montanha, todas as outras mudam de tamanho. Mas deveria haver. Por ele eu tentaria explicar como foi o show de Maria João e Mário Laginha no Porto Alegre em Cena.

Posso citar aqui a rápida trajetória da intérprete, que tornou público seu talento há pouco mais de vinte anos – a artista tinha 27 – e hoje é uma referência como cantora de jazz e dos demais gêneros. Também posso contar da longa parceria de Laginha e João (como as pessoas mais íntimas tratam Maria), que rendeu discos saborosos como Chocolate (2008), álbum que dá nome espetáculo. Nada disso, porém, corresponderia ao assombro de assistir a uma fabulosa mistura de quatro continentes de musicalidade, técnicas orientais cênicas e respiratórias, um espectro vocal muito extenso e afinadíssimo, além de uma variação de timbres que impressiona mesmo as pessoas mais acostumadas.

Mário Laginha, premiado pianista português, foi tecnicamente impecável, muito sensível e de ótimo gosto nos improvisos e acompanhamentos. Em alguns momentos do espetáculo, soube muito bem ser protagonista, chegando a ser aplaudido pelo público num de seus improvisos mais inspirados. Já Maria João é, de fato, aquela grande montanha de que falei na primeira linha. Assisti-la cantar é reconhecer facilmente que Billie Holiday e Ella Fitzgerald tiveram continuidade nas terras d’além-mar, em especial, nas canções “Parrots and lions” e “Beatriz”, que demorarão a deixar os meus ouvidos – não é a primeira vez que olhares longe da origem e do centro revigoram uma arte secular.

Assim que as primeiras notas do espetáculo soaram, me esqueci por um instante que já tinha ido a shows de outras cantoras. Trata-se do poder da arte verdadeira em construir momentos absolutos. Que as outras montanhas desculpem meu entusiasmo, mas nunca estive tão perto de um artista maior.

(publicado no jornal Zero Hora, 08 de setembro de 2011)


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1 Comentário »

  1. Eu quem aplaudo de pé o texto, pelo simples e idiscutível fato de querer ver o show! Porque imaginar, imaginei LINDAMENTE! Quando crescer, quero ser assim….
    Bah, que saudade de ti (escrevi meu melhor “gauchês”…)!!!!!!

    Comentário por Thata — 21 21UTC setembro 21UTC 2011 @ 17:13


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    Biografia

    Poeta dos livros "zero um" (2010), "Poemas Lançados Fora"(7Letras, 2007), "Sintaxe da Última Hora" (Scortecci, 2006) e "Reflexos" (FEME, 2000), além de premiado em concursos literários e presente em diversas coletâneas de poesia. Indicado ao Prêmio Açorianos (Categoria Poesia) no ano de 2010.

    Co-roteirista dos filmes de curta-metragem "Estado Senil" (2009), "Revés" (2008) e "Bons sonhos, Maria"(2006).

    Argumentista da personagem Júlio César, que foi publicado pela primeira vez em setembro pela revista independente "Eixada" e republicado este ano na coletânea "O melhor da festa, volume 3".

    Linguista pela Unicamp, especialista, mestre e doutorando em Literatura Brasileira pela UFRGS.

    www.gutoleite.com.br

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