PROMOÇÃO TROMBONE-RECORD: cite um discurso que foi importante na tua vida e por quê, e concorra ao novo livro de Gabriel García Márquez, Eu não vim fazer um discurso. O Trombone escolherá um dos comentários feitos entre 08/09 e 15/09, premiando o autor com um exemplar da obra.
Não sei se há obra de fôlego sobre a estrutura dos discursos, esse tipo de texto tão peculiar feito para ser falado em público, mas escrito no silêncio privado. É de uma variedade deliciosa de discursos que se compõe o novo livro de García Márquez, Eu não vim fazer um discurso, que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Record. Que ali há mais aspectos do escritor do que no narrador de seus romances, não há dúvida, mas não podemos perder de vista a construção inevitável de uma persona, sobretudo a alguém declaradamente avesso a discursar.
A seleção preparada por Cristóbal Pera é de amplo espectro, indo desde um discurso de formatura no Liceu (para uma classe um ano superior à sua), em 1944, até sua fala em um Congresso Internacional de língua espanhola em homenagem ao escritor, realizado em 2007. Por isso, somos capazes de perceber ao longo do livro, um amadurecimento gradual do escritor e do homem público – o que é reconhecido pelo próprio García Márquez (p.117) – e podemos recolher algumas preciosidades.
A primeira delas que gostaria de comentar é “A solidão da América Latina”, discurso proferido na premiação do Nobel, em Estocolmo, 1982. No todo, trata-se de uma fala profundamente sensível aos problemas de nossa parte da América, seu déficit em relação ao centro do mundo e suas aspirações próprias, que não necessariamente passam pelos moldes europeus ou estadunidenses. Do alegórico, Márquez traça algumas semelhanças em como os primeiros cronistas europeus nos viram e como a visão deturpada seguia (ou segue) sendo uma nota dominante na apreciação de nosso povo.
A segunda preciosidade, dentre outras que poderia citar, é intitulada “Meu amigo Mutis” e foi lida por Gabriel García Márquez na noite de aniversário de 70 anos do amigo, em 25 de agosto de 1973. Um conjunto de histórias acerca de Álvaro Mutis que revelam tanto o espírito aceso do poeta colombiano, quanto o bom humor e o poder de observação do ganhador do Nobel. Da forma como foi presenteado com um exemplar de Pedro Páramo pelo amigo ao dia em que quase morreram juntos num acidente de carro na Europa, são muitas as pinceladas de Márquez que colorem ao mesmo tempo quadro e pintor.
Ao leitor mais afeito a um olhar de conjunto, também é possível notar nos discursos o engajamento do escritor a diferentes causas (relação Colômbia-EUA, o crescimento da violência, cultura latino-americana, desarmamento nuclear etc.), aspectos da vida pessoal de García Márquez e até certos equívocos puristas, ao condenar, por exemplo, o tempo do gravador na profissão jornalística, ou linguísticos, ao vaticinar um grande futuro à língua espanhola por sua “dinâmica criativa”. A prova, enfim, da riqueza do livro são as maneiras diferentes de abordá-lo de forma interessante.
A obra que li e gostaria de compartilhar não tem, claro, a pujança de Cem anos de solidão ou Amor nos tempos do cólera. A comparação chega ao ridículo, ainda mais para mim, que as li em épocas tão especiais da vida e por puro gosto. Mas também é maravilhoso brincar de achar e perder o escritor tímido, capaz de dizer, num discurso: “eu comecei a ser escritor da mesma forma que subi neste palco: à força”. Colocar-se um pouco mais à frente no teatro, em relação ao escritor, do que aquela cadeira ao fundo da leitura dos romances, onde há sempre um narrador a quem tocamos no ombro para poder ver o palco, se for este o caso.
Agradecemos a participação de todos! Das mais de cem visitas, merecem muitos parabéns os três corajosos comentários! A parceria Trombone-Record escolheu o comentário número 1, de Hermano Gomes, parabéns! A parceria retoma os laços daqui a algumas semanas com um livro de Umberto Eco, aguardem.
Comentário por trombonearte — 18 18UTC setembro 18UTC 2011 @ 22:33
Idéias opostas às minhas sempre soaram como um tambor dialético, construtivo em uma processo contínuo, além da hora do discurso, mais como uma sombra do que deveria ser refutado, do que um resultado acabado. Os discursos do XXIII Forum da Liberdade, ocorrido em Porto Alegre (2010) foram fermentadores. Um dos discursos mais impactantes para mim foi o do Fernando Henrique Cardoso, palestra de fechamento do evento. Eu discordo dos princípais pressupostos do neoliberalismo e o discurso era rico de elementos que perpassaram durante todo o evento e eu repugnava. Porém ao fim do discurso eu ganhei serenidade e perdi a repugnância, ganhei maturidade por ouvir. E também acho que o discurso foi importante para eu saber sobre o que lutar, sobre o que eles acham ou querem convencer de que é a verdade. Eu entendi como um discurso tem força se é repetido muitas vezes até que convence de que é a verdade, tão repetida que soa como “senso comum”, e percebi como parece ridículo o seu oposto.
Como expôr o lado oposto nessa atmosfera? É preciso saber ouvir para saber falar. Ainda hoje me encontro no processo e carrego esses discursos em meus pensamentos e contínuo a amadurecer, e assim será até que eu pare de pensar.
Comentário por Hermano Gomes Lopes Nunes — 15 15UTC setembro 15UTC 2011 @ 20:25
Honestamente, emocionei-me com o discurso da presidenta Dilma à época do dia das mulheres. Não me lembro onde vi ou se li, mas me marcou muito. Ela começava afirmando que o objetivo fundamental do seu governo é a erradicação da pobreza extrema e dizia que, no Brasil, a pobreza tem cara – ela é feminina. Quanto mais pobre a família, maior são as chances de ela ser chefiada por uma mulher. Em outro momento, a presidenta revela que “a pobreza tem gênero e tem cor: é mulher e é negra”. Bem, certamente vc deve estar se perguntando em que esse discurso mudou minha vida, pois digo: vislumbrar um futuro diferente para o Brasil me faz querer ser uma pessoa melhor. Acho que o discurso está no caminho certo, veremos as ações…
Comentário por Candice Alcantara — 9 09UTC setembro 09UTC 2011 @ 23:30
O discurso mais impactante que ouvi ultimamente foi ontem (07/09), mais precisamente. E foi de ninguém menos que Lygia Fagundes Telles, nos Encontros de Interrogação, promovido pelo Itaú Cultural, em São Paulo.
Por quê? Porque ela trata de literatura, de vida, de histórias, de sonho.
Comentário por Thata Albieri — 8 08UTC setembro 08UTC 2011 @ 9:01