Trombone: Blog de Crítica de Arte em Porto Alegre

o micróbio do samba | 22 22UTC agosto 22UTC 2011

Retomo as rédeas deste blog pelo motivo óbvio: uma absoluta falta de tempo! Não há razão mais justa para acrescentarmos uma prática na agenda do que não ter tempo para mais nada. Celebrando este retorno, comento (mesmo que brevemente) o mais recente cd de Adriana Calcanhoto, o micróbio do samba (2011).

A proposta em si já é muito boa: fazer um cd basicamente de samba, esse imenso gênero guarda-chuva (como o rock) que permite construir uma unidade coesa, mas variável, moderna e, ao mesmo tempo, tradicional. Nas palavras da cancionista, em entrevista para a Tv Cultura, o gênero sempre esteve entremeado a seu trabalho e foi a vez, palavras minhas agora, de Calcanhoto compor a partir dele e não através dele. De maneira geral, o cd é de audição muito agradável, mas gostaria de discutir aqui algumas questões para dar matéria mais consistente a eventuais conversas a respeito.

O primeiro mérito notável do álbum são certamente seus arranjos. Com produção de Daniel Carvalho, desde a primeira faixa, “eu vivo sorrir”, os instrumentos (e efeitos) se movem sempre em direção às canções e não a revés elas. Entende-se, e muito acertadamente a meu ver, que a mensagem na canção passa pelos instrumentos, mas não pode se encerrar neles, ao custo de poder atrapalhar o bom entendimento da entoação (em especial nestes tempos de espectadores dispersos). Outra lição (assimilada e dada) pelo cd sambístico de Calcanhoto é que há roupagens novas interessantes para o samba e isso não passa por descartar as estruturas de Noel Rosa, Paulinho da Viola ou Lupicínio Rodrigues (conterrâneo que a cancionista cita no encarte e de quem extrai o título do álbum), mas por intensificá-las. Afinada a Caetano, a Los Hermanos e a outros poucos (em terça, quinta, talvez, não uníssona), seu samba é extremamente vivo e convida a uma leitura contemporânea e orgânica.

Como indícios dessa continuidade atual, estão alguns recursos cancionais que a artista lança mão, como, por exemplo: a rima toante e a proximidade lexical no verso “pro caso do acaso estar inspirado” (a rima é com elevador), a síncopa e a malandragem no canto de “e emaranhar por capricho”, a alteração sob controle da sílaba tônica e o neologismo de “deverá desbotar, desimportar”, o trocadilho graciosa de “aquele plano para me esquecer / esqueça”; todos mobilizados com grande desenvoltura pela compositora.

Mas como nem tudo cheira bem no reino da Dinamarca, há um teto temático bem demarcado na canção atual e que, acredito, também incomoda a estética atual de Calcanhoto (lembro que suas canções já foram mais abusadas, no bom sentido). Ninguém mais fala do amor, mas do estar amando. Ninguém comenta a coragem, mas o ato heroico. Ninguém se arriscar a teorizar os grandes temas, mas prefere tratar da concretização desses temas na vida cotidiana, em casos, fatos,  exemplos, perspectivas etc. Na minha pequena opinião, não precisamos mais levar tão a sério a lição pós-moderna, certo? Sobretudo para alguém com formação sólida e bastante envolvida no mundo literário contemporâneo como a artista, vale o passo rumo a uma abstração maior em suas canções. E acho que faria muito bem para sua obra e para seus fãs ela dar esse passo.

Também como crítica, mesmo com as pequenas pérolas “aquele plano pra me esquecer” e “beijo sem”, e as boas canções “já reparô?” e “deixa, gueixa”, uma seleção mais atenta do repertório do álbum poderia ter sido feita. Alguns versos enfraquecem boas canções do cd e “pode se remoer” chega a ser constrangedora de tão modesta.

De todo modo, espero sinceramente que esse micróbio do samba se espalhe e mais cancionistas retornem ao gênero com suas leituras e versões (Zeca Baleiro, Arnaldo Antunes [sem os Tribalistas - tá bom, sem o Carlinhos Brown pelo menos] e Vitor Ramil são alguns dos artistas que eu gostaria de ouvir contaminados). Ficam sentimentos e sensações felizes das duas semanas em que convivi com o micróbio do samba, de Adriana Calcanhoto. Só de ser feito para ser arte, já se torna muito diferente de noventa por cento do que compõe o campo da arte contemporânea deste país.


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    Biografia

    Poeta dos livros "zero um" (2010), "Poemas Lançados Fora"(7Letras, 2007), "Sintaxe da Última Hora" (Scortecci, 2006) e "Reflexos" (FEME, 2000), além de premiado em concursos literários e presente em diversas coletâneas de poesia. Indicado ao Prêmio Açorianos (Categoria Poesia) no ano de 2010.

    Co-roteirista dos filmes de curta-metragem "Estado Senil" (2009), "Revés" (2008) e "Bons sonhos, Maria"(2006).

    Argumentista da personagem Júlio César, que foi publicado pela primeira vez em setembro pela revista independente "Eixada" e republicado este ano na coletânea "O melhor da festa, volume 3".

    Linguista pela Unicamp, especialista, mestre e doutorando em Literatura Brasileira pela UFRGS.

    www.gutoleite.com.br

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