Trombone: Blog de Crítica de Arte em Porto Alegre

O melhor romance de Chico | 12 12UTC março 12UTC 2011

Digo de começo que não sou um entusiasta pelo Chico escritor. Já tinha lido Budapeste, Benjamim e cem páginas de Leite Derramado, que não consegui terminar porque as incongruências na construção do narrador começaram a me irritar, até que meio por acaso me caiu na mão o romance Estorvo e preciso dizer: aí está o grande romance do filho mais célebre dos Buarque de Holanda!

(Vale dizer que sei que sou minoria quanto às críticas à obra literária do Chico e que aqui, obviamente, não abarco o cancionista, simplesmente o maior compositor popular da história de nossa cultura, com sobras.)

No romance, sempre em primeira pessoa e no presente (o narrador narra o que lhe acontece no momento em que acontece), acompanhamos a história de um filho de boa família que supostamente não manteve o bom padrão de seus pais e recebe deles um misto de comiseração e afeto, por sua postura de “artista”. Um personagem, aliás, muito adequado para que, por meio dele, Chico construa o que acredito ser a linha principal do romance: a representação de uma sociedade em que tudo se ajeita. Não se trata, é bom dizer, do jeitinho brasileiro como estamos acostumados em Memórias de um sargento de milícias ou O auto da Compadecida. É algo mais moroso, menos ativo, como se as pessoas esperassem o fato para se adequar a ela. Algo bem diferente, em representação e contexto, da ideia do arrivismo e da busca da melhor oportunidade (seria Chico modulando o conceito do pai?).

Por essa chave, nada é irremediável no contexto do romance. Alguém bate à sua porta? Deixe-o lá e, enquanto ele for falar com o parteiro, escape por outra saída. Precisa de dinheiro? Use as joias que sua irmã guarda e que só usa mesmo em suas viagens para o exterior. Vá para a antiga família da fazenda e, mesmo estando tomada por crianças, um velho aliciador e alguns traficantes, ache seu canto, adormeça. Tomou uma facada, possivelmente por engano, de um homem no ponto de ônibus? Vá para casa, quem sabe sua mãe e irmã não tenham uma boa saída para seus problemas. É tudo uma reação às peripécias que vão se seguindo ao longo do enredo.

Além desse, que me parece o centro do romance, um intenso movimento de vertigem tabela com essa adequação constante das personagens. Em certas passagens, não sabemos se o que é narrado realmente ocorre ou se não passa da imaginação e das conjecturas do protagonista. Reforçado pelos ambientes absurdos da fazenda, da visita inesperada do homem (ecoando O processo, de Kafka), da mãe cheia de manias ao atender o telefone, da violência do assalto à casa da irmã do narrador, Chico cruza inúmeras vezes, e de ambos os lados, essa linha do que podemos asseverar existir. A essa característica atribuo à sensibilidade impressionante do artista: não vivemos momentos em nossas vidas em que precisamos de um segundo momento para estarmos seguros de ser verdade? E normalmente esses momentos não são momentos ruins? Chico escreve seu romance entre o revés e a certeza do revés.

Contudo a minha principal crítica ao romancista carioca se mantém em Estorvo, embora me pareça aqui bem mais sutil do que nos outros romances dele que li. Talvez por ser um apreciador há anos de sua obra cancionística, talvez por ser mesmo um leitor para lá de casmurro, não resolvo muito bem a semelhança tão grande entre a voz e as imagens do narrador e a voz e as imagens do compositor popular. O jeito de humor, as cenas de romance, as fotografias da elite, às vezes tenho até a sensação de que trechos colam em versos de algumas canções de Chico. O pior é que suspeito que seja essa semelhança que desperte a admiração dos atuais leitores que o premiam (entre 50 e 70 anos). Os apaixonados, vivencialmente apaixonados – o que é muito maior do que minha paixão de turista, nascido vinte anos depois -, pelas canções do compositor, que entreveem nas narrativas um desdobramento qualificado das primeiras. Para meu gosto neófito, gostaria ao menos que ele ironizasse ou subvertesse essa identidade, como faz o Paul Auster de Noite do Oráculo, em vez de ficar me provando que aquele narrador (como acontece bem mais fortemente em Benjamim, Budapeste e Leite Derramado) não é o próprio Chico. Porque é.

“Pão ou pães é questão de opiniães” e aqui fica a minha. Seu destino esperado é morrer dentre tantas outras que já foram ditas a respeito deste romance de Chico. Se servir para discussão, valeu o trabalho. Se iluminar pontos para aqueles que estudam com afinco a obra literária de artista carioca, ainda melhor (melhor?). “E vão construindo telhados”.

p.s.: este breve ensaio deve um tanto ao artigo de Roberto Schwarz sobre o tema em Sequências Brasileiras.


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    Biografia

    Poeta dos livros "zero um" (2010), "Poemas Lançados Fora"(7Letras, 2007), "Sintaxe da Última Hora" (Scortecci, 2006) e "Reflexos" (FEME, 2000), além de premiado em concursos literários e presente em diversas coletâneas de poesia. Indicado ao Prêmio Açorianos (Categoria Poesia) no ano de 2010.

    Co-roteirista dos filmes de curta-metragem "Estado Senil" (2009), "Revés" (2008) e "Bons sonhos, Maria"(2006).

    Argumentista da personagem Júlio César, que foi publicado pela primeira vez em setembro pela revista independente "Eixada" e republicado este ano na coletânea "O melhor da festa, volume 3".

    Linguista pela Unicamp, especialista, mestre e doutorando em Literatura Brasileira pela UFRGS.

    www.gutoleite.com.br

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