O que pode um poeta mais novo dizer a um poeta mais velho? Nada, diriam os tradicionalistas. À contrapelo, eu ficaria bem feliz com algumas horas de café com Rimbaud ou com o jovem Borges. Fugindo à comparação enquanto é tempo, foi com a primeira pergunta em mente que pensei em escrever sobre Quichiligangues, segundo livro do poeta Sidnei Schneider. Este, um poeta, tradutor, ator com cinquenta anos de uma vida riquíssima! Aquele, um dos três finalistas na categoria Poesia do Prêmio Açorianos do ano passado. Será que eu, de vida e prêmios escassos, poderia fazer uma leitura útil do livro de Schneider?
Antes de tudo deixo uma grave obviedade: Schneider é um poeta! Pode parecer patético este começo de análise, mas não acredito que todos sejam escritores ou poetas. Não são poucos os poetas, mas também não são muitos. É necessário certo cuidado com a linguagem que está presente em Quichiligangues a todo momento. Um verso como “quieto como um cigarro” não é das coisas mais simples de se fazer, porque une em si uma enormidade de sentidos que circunscreve o tabaco, mas o ultrapassa (evito explicitar as leituras aqui pelo prazer do leitor). Também entendo como um pré-requisito do poeta certa visada não apaziguadora de mundo, a não aceitação da mentira resumidora do real. E eis novamente uma dessas vigas de um bom poeta, por exemplo, no poema “À moda de Kaváfis”, onde Schneider representa a relação entre o trabalho e o ócio com a precisão e a ambiguidade de uma poética muito sensível das coisas.
Por outro lado, duas características da poesia de Schneider não me agradam como leitor. A primeira delas é certa grandiloquência em alguns poemas, como “Elegia da cantora de ópera” (cujo começo, pelo contrário, é fabuloso) e “Poema de inverno”. A meu favor cito o próprio poeta, que em “Cerâmica” nos apresenta um lirismo de força maior, apoiado numa poeticidade bandeiramente humilde e cotidiana. Trago o poema na íntegra:
Cerâmica
na primeira fase da humanidade,
o barro, objeto de desejo, viu-se
moldado como pegada de cervo,
virou utensílio, panela, recipiente:
Deus!, o homem se fez de barro,
disse a menina sujinha de batom. (p.47)
Minha segunda ressalva, e que está de alguma forma ligada à primeira, diz respeito a um “meio do caminho” entre a exigência formal e o ritmo interno do poeta. Não falo aqui de versos livres, mas me refiro a poemas com determinado número de sílabas poéticas e que não estão tão metrificados assim, o que gera em seu bojo um descompasso de ritmo. Exemplos disso no livro de Schneider são “Bandônio” e “À modelo-vivo”. Sem querer forçar o recurso argumentativo, novamente chamo o poeta para me ceder o argumento com seu excelente “De como lidar com rio”, onde abre mãe da métrica regular pelo seu próprio pulso e o resultado é uma coleção de bons versos, como, por exemplo:
Represar um rio é impossível.
O rio insulta a barragem. (p.19)
ou
“Não é pisando em peixes
que conseguiremos atravessá-lo” (p.19)
Obviamente recomendo a leitura de Quichiligangues! Num hipotético curso de poesia contemporânea, tomaria emprestado alguns de seus poemas para demonstrar exemplos de técnica e de mobilização da tradição – outras duas qualidades, a meu ver, de Sidnei Schneider. Espero que minhas impressões sirvam de aportes para o leitor que se aventurar em suas páginas e, eventualmente, despertem um interessante diálogo poético com o autor. Nestes tempos de difícil delimitação do lugar da poesia e da marginalização da figura do poeta, precisamos mesmo nos ler com atenção e provocar com honestidade algum diálogo.
Muito bom ler alguém falando do Sidnei, e de sua obra, que eu ainda não li, mas em sua obra anterior, Plano de Navegação, e nas suas interlocuções em uma trupe de poetas que aventuravam-se em “Sair da Gaveta” já experimentei navegar em seus textos e pela inspiração sucintada escrevi estes versos depois de ler O palhaço e o Mendigo:
Perfil camaleante
que desabroja
na lucidez
lúdica do poeta
Rememora a implicância
da mindicância mundana
Sempre a olhar e virar
o mundo que se vê
No ferro olhar
trem que já se foi
palhaço e mendigo
tem de caminhar
para a arte desabrojar
Comentário por Rafael Martins Trombeta — 15 de outubro de 2010 @ 18:24
Obrigado pelo comentário, Lola. Está para sair um livro de contos, aguarde. Alguns já estão por aí, em jornais e coletâneas.
Comentário por Sidnei Schneider — 15 de outubro de 2010 @ 12:49
Fiquei super-animado com a resenha. Gostei muito, e não só pelos elogios, mas porque expressa o que pensas. Ler uma resenha assim é ótimo, e reconheço a tua habilidade de crítico. Quando vem só elogio eu não acredito, pode até ser sincero, mas não consigo.
Encaminho o que segue simplesmente para ampliar o diálogo, para que possamos trocar mais, sem me contrapor a tua bem colocada opinião.
Assim, talvez devesse esclarecer uma ou outra coisa, sem desdizer nada. Dois dos poemas que citaste, O bandônio e À modelo-vivo, não tem métrica regular mesmo, não tive essa intenção, nem jamais cogitei de sua necessidade. O Elegia da cantora de ópera, quis que fosse operístico, um poema de gravata borboleta, com terza rima dantesca, onze sílabas em vez de dez, construção clássica do verso, termos não usuais, longe da moda como ele mesmo se diz, buscando consonância com o tema. Já Poema de inverno, na minha concepção pelo menos, é simples dicção popular, não quer ser nada além. Reconheço, é óbvio, que poema não tem nem deve ter explicação anexa. Tua leitura sinaliza sobre a recepção. Tudo o que escreveste faz pensar, e agradeço muito por isso.
Abraço grande e obrigado pelo trabalho,
Sidnei
Comentário por Sidnei Schneider — 15 de outubro de 2010 @ 12:41
É uma pena que ele não publique a prosa. Delicada e precisa.
Comentário por Lola — 15 de outubro de 2010 @ 10:49