PROMOÇÃO TROMBONE E EDITORA RECORD: Leia a resenha do livro Meu nome não é Johnny, de Guilherme Fiuza, e responda à pergunta ao final do texto para concorrer a um exemplar da obra. Após uma semana, dois leitores serão premiados com 1 exemplar cada. Participem! Cornetem!
Não é à toa que diversas vezes o assunto “cinema e literatura” seja mencionado aqui no Trombone. Com uma força tão expressiva quanto o cinema a saciar nossas necessidades épicas, talvez a forma romanesca esteja mesmo sendo reduzida em seu espaço de repercussão desde meados do século XX (algo semelhante deve ter ocorrido com a epopeia quando do surgimento do romance). Mas como bem disse uma leitora assídua deste espaço: isso é papo obsoleto; ao menos do século passado, completo eu. No entanto, não posso deixar de dizer o seguinte da leitura de Meu nome não é Johnny, de Guilherme Fiuza: o livro é extremamente mais rico do que o filme!
Claro que não estou passando por cima da atuação magnética de Selton Mello nem mesmo das boas escolhas de Mauro Lima (o diretor), que compoem um filme vibrante e divertido. Aliás, acho que essas características contribuem para a relativa simplicidade do filme em relação ao livro.
Embora o próprio João Estrela seja um personagem muito interessante, sem o reforço de atuação, conseguimos vislumbrar com atenção e alguma minúcia as outras pessoas que cruzam a vida do protagonista. Familiares, amigos, comparsas, colegas de penitenciária e manicômio: todos ganham cores mais vivas e, talvez por isso, passem a contar com uma afeição maior do leitor. Complementarmente, o diretor do filme opta clara e acertadamente por uma trajetória mais dinâmica e passional, o que nos tira os detalhes que o autor insere com cuidado no livro, sejam as muitas informações do contexto econômico, social e político que circundaram a história de Estrela, seja o arco narrativo explícito, que começa e termina com a cena do jogo de futebol, como imagem do caráter gregário de João, mas também de sua vontade de vencer a todo custo.
Há um espinho, entretanto, que filme e livro compartilham em suas carnes: como narrar a história de um ex-traficante sem tomar partido? Que ainda pode ser mais cortante: não tomar partido numa história como essa já não é tomar algum partido? Nesse sentido, o livro acompanha o filme ao nos apresentar um homem vencedor, que não só conseguiu dar a volta por cima no final das contas, mas que também costumava trinufar nos pequenos desafios, nas enrascadas cotidianas em que se metia. Se por um lado eu lia todo o tempo (convencido pela habilidade do escritor) com a noção de que se tratava realmente de um personagem que devesse contar com minha simpatia, por outro, eu não podia esquecer que, sobretudo indiretamente, acredito, na atividade daquele homem muitas vidas tiveram complicações sérias em função do tráfico de drogas.
Essa questão, por sinal, gera um interessante eco teórico, que esboço rapidamente. O século XX infelzmente nos trouxe um bom número de literaturas de testemunho, onde refugiados de guerra ou marginalizados por algum outro motivo relatam suas perspectivas sobre o ocorrido, algo como o viés encoberto da história oficial. Pois bem, como eu poderia aproximar a narrativa de Fiuza sobre João Estrela desse tipo de narrativa? Se o relato em terceira pessoa, mas bem próximo ao protagonista, e a trajetória razoavelmente vencedora distanciam das narrativas de testemunho, o olhar um tanto acusatório sobre o underground carioca da década de 80 e o ambiente das prisões certamente aproximam dessas narrativas a contrapelo. O livro de Fiuza dialoga com Carandiru e André du Rap, com os contos de Rubem Fonseca, como “O cobrador”, por exemplo, ou com um estilo de vida Cazuza e o som frenético da Blitz?
Independente das relações, é preciso dizer que se trata de um livro muito eloquente. Ainda há alguns desvios da mão que procura o traço certo para esse tipo de texto, mas nos melhores momentos faz lembrar os mestres Gay Talese, Truman Capote, Ruy Castro e (menos mestre) Nelson Motta. Expressões como “lucidez per capta” (uma das que me ficou na cabeça) são realmente achados de talento! Há também que notar a sensibilidade do tratamento do homem João Estrela. Textos bibliográficos trazem consigo essa armadilha e acredito que o autor soube lidar muito bem com ela. Para além da obra, nestes casos, há o homem ainda vivo, cheio de planos, alegrias, decepções e tudo o mais que preenche a vida das pessoas. Se não merece uma placa por seu passado, eu a daria um ticket pelo seu futuro. Nem mesmo a grande habilidade narrativa (e de leitura) do autor puderam amenizar a história trágica, representativa e tocante do protagonista.
PERGUNTA DA PROMOÇÃO: Quais foram as melhores adaptações feitas para cinema e por quê?