TROMBONE: as 2 melhores respostas ao questionamento no final do texto (no prazo de uma semana da data de postagem) ganharão um exemplar do livro resenhado, como cortesia da Editora Record. Os ganhadores serão também convidados, caso queiram, a escrever algumas linhas (parágrafos, por que não?) sobre a obra aqui no espaço do Trombone! Leiam! Respondam! Cornetem!
Wagner Krupa, um devasso crítico de arte, avesso às “vanguardices”, se envolve em tramas sucessivas com arte-terroristas, padres amorais, uma sexy despachante, auditores da receita, marginalizados, entre outros, pelo interior das “shopping cities”, imensas construções auto-suficientes que susbituíram as cidades nas primeiras décadas do século XXI, deixando de fora aqueles que não poderiam consumir, em estado constante de barbárie. Essa seria em poucas linhas a sinopse do livro Delacroix escapa das chamas (Record, 2009), de Edson Aran. Em poucas vezes, contudo, um resumo se mostra tão incapaz de dizer algo relevante da natureza da obra. Se aí estão evidentes a ficção científica, o pano de fundo do mundo da arte (e seus contrassensos) e o tom de aventura, na maioria das vezes policial, que perpassa o livro, ficam de fora as incontáveis referências que o autor lança mão para descrever essa estranha (reconhecível e irreconhecível) São Paulo do final do século presente.
A começar pelo protagonista, Wagner Krupa (Richard Wagner? Frank Capra? Joseph K.? Gene Krupa?) é possível entrever várias referências compondo as personagens e enredos. Às vezes o autor toma de empréstimo da alta cultura, noutras vai buscar suas alusões no mundo “cult” e há ainda trechos em que pinça da cultura pop mesmo, como o cozinheiro dos mendigos, ex-chef de uma brasserie, Jean-Claude (Van Damme?). Na maioria das vezes, entretanto, essas referências são misturadas e, não raro, num mesmo ponto de sentido (personagem ou enredo), o leitor atento vai perceber a sobreposição de muitos elementos, normalmente costurados por um humor ácido. Reparem que este procedimento está bem próximo do mecanismo tropicalista, talvez com uma roupagem mais satírica, o que me fez lembrar em alguns momentos dO rei da vela. De toda forma, não pretendo, nem seria possível aqui, esmiuçar cada uma das construções desse tipo. Eis um dos grandes prazeres do livro, responsável por algumas boas risadas graças à engenhosidade do autor.
Outro grande mérito da obra, a meu ver, está nessa relativa facilidade de se passar por suas quatro partes com a curiosidade renovada sobre o que ainda virá. Mesmo que o leitor não recomponha todas as referências, é possível, num tempo de Poe (matematicamente = 1 assentada), ler todo o livro com interesse, cerca de 180 páginas. Primeiramente, acredito, pela vivacidade das histórias e pelo pulso com que o autor consegue levar adiante sua narrativa. Em segundo lugar, justamente por esse emaranhado de alusões que diverte o leitor e, para os mais interessados, faz com que haja tentativas de se remontar o processo de composição. Desde que retomei minhas leituras de Saramago no ano passado, acho que despertar o prazer da leitura deve ser considerado um mérito de quaisquer livros e Delacroix certamente o possui.
Mas é claro que há ressalvas nesta obra de Edson Aran (antecipando a pergunta de um suposto leitor exaltado)! A última obra que li sem ressalvas muito evidentes, aliás, foi Grande Sertão Veredas, há seis meses, ou seja, o comum da obra é ter pontos fracos. Ponto. Na minha opinião, em Delacroix escapa das chamas, o ponto fraco é o narrador, e de goleada. Se o autor interessa por seu engenho, o narrador, principalmente (se é que podemos fazer biópsia de narrador) quando vai dar voz às personagens, tropeça na efetivação de algumas técnicas. Ora abre aspas em discurso direto, ora utiliza indireto, dentro da fala em terceira. Muitas vezes oscilamos sem saber quem verdadeiramente fala, mas não da maneira requintada e instigante de Flaubert (destreza que até mesmo o ajudou a ser processado), mas de não encontrarmos origens possíveis para determinados pensamentos, de nos frustrarmos na busca. Isso sem contar trechos didáticos como “Os epicuristas seguem os ensinamentos do filósofo grego Epicuro…” (p.16), totalmente dispensáveis num livro tão inteligente.
Outra discordância, mas não acho necessariamente um defeito, é que, embora esteja na capa (“um romance em quatro tempos”, a ilustração traz “uma novela em quatro tempos”, mas não o livro que tenho em mãos), o livro não é um romance, mas sim quatro novelas com um único protagonista e algumas outras ligações em comum (lugares, personagens, hábitos etc.), o que me lembrou um pouco o Mandrake, de Rubem Fonseca, recorrente em vários conto. Isso não muda nada na minha apreciação do livro, só acho interessante realçar que não, não é um romance (nem tradicional, nem inovador) e não há mal nenhum nisso (a não ser que chamá-lo de romance seja mais uma inversão da obra… mas acho que não é o caso).
Também discordo de Ivan Lessa, que escreveu a orelha, ao chamar de “desrazão peripatética”, mesmo que o próprio Lessa tenha feito um mea culpa ao final – se houvesse tanta culpa, não dissesse. Que é feito de peripécias, absolutamente de acordo. No entanto, o foco muitas vezes não está em Krupa, mesmo que ele esteja, salvo engano, em todas as cenas do livro. O foco é em seu derredor. Em termos morettianos, importam os enchimentos e não as bifurcações (aliás, traço comum das ficções científicas). É nelas, pela interação de Krupa, tudo bem, que o leitor será agraciado com as cores mais interessantes desta obra. Já me desculpando por ser ranzinza, tampouco são novelas desrazoadas. Aí está a meu ver um outro subterfúgio muito acertado do autor, que pelo espectro futurista (movimento que só logra relativo êxito em países socialmente desequilibrados, p. ex. Rússia, Itália e Brasil, o que é importante [observação afiada do professor Luís Augusto Fischer]), enxerga um futuro muito racional, mas pela razão do consumo, das propagandas, da religião-arte-política indissociáveis etc. Não caminhamos para a falta de razão, segundo a imaginação do livro (e concordo), mas para a falta de transcendência, o que gera o absurdo.
Aproveitando o gancho, finalizo a resenha com uma observação que diz respeito à boa obra de Aran (matematicamente, boa = obra que eu presentearia amigos e mencionaria em conversas), mas que talvez também tenha um alcance um pouco maior. Apesar do tom surrealista aplicada a uma competente narrativa, minha impressão de leitura insistia em dizer que ali estava se dando uma crítica eloquente contra a sociedade de consumo e a banalidade do mundo artístico contemporâneo. Claro que não de maneira comportada – fraque e cartola na porta da Colombo – mas com desbunde, o que concede ainda mais força à obra. Lembrei-me então de Carassotaque, novela de Alfredo Aquino lançada em 2008, que também mobiliza a ficção científica, menos criativa, mais séria, para uma contundente crítica social, no caso, contra a desmemória da ditadura. Havia esse tipo de crítica nas ficções científicas de sempre? Acredito que em Júlio Verne, Orson Welles, Issac Asimov, Perry Rhodan (personagem de vários autores) há, sim, a crítica, mas ela parece vir sob a maravilha imagética da inovação.
Com o cinema fazendo as vezes de saciar essa necessidade de imagens, será que sobrou pra ficção científica um papel crítico diante do mundo? Ou essa é uma forma que o gênero encontrou para driblar os efeitos especiais? O que acham? Qual o presente-futuro da ficção científica literária?
[...] The busiest day of the year was 14 de abril with 71 views. The most popular post that day was Delacroix escapa das chamas. [...]
Pingback por Os números de 2010 « Trombone: Blog de Crítica de Arte em Porto Alegre — 3 de janeiro de 2011 @ 13:01
Parabenizo a todos os leitores que comentaram neste espaço e que vem transformando o Trombone num lugar bacana para a discussão de arte. Os ganhadores dos exemplares, um escolhido por mim, outro pela Record, são Laurene e Iuri, com os quais já estou entrando em contato para o envio do livro. Espero que haja novas parcerias e que possa haver ainda mais participação crítica e leitura. Um grande abraço a todos e arte, sobretudo.
Comentário por trombonearte — 29 de abril de 2010 @ 11:18
Prezados leitores, promoção encerrada. Logo logo informaremos aqui os comentários escolhidos e entraremos em contato com seus autores para o envio dos exemplares e para o convite de escrever algo para o Trombone. Agradeço imensamente a leitura e a participação de todos. Grande abraço!
Comentário por trombonearte — 20 de abril de 2010 @ 11:05
Percebo o questionamento como um inquietamento do escritor da resenha e dos escritores em geral, uma vez que temer que o gênero seja extinto implica na diminuição de nosso oficio comum: a escrita.
Gostaria de falar primeiramente sobre minha percepção da importância e futuro do gênero visto por uma graduanda de Letras, que não considera o cinema uma fonte que substitua ou se compare a literatura.Não que o cinema seja inferior, não ousaria fazer tal afirmação vivendo num país que antes da ditadura era considerado um pólo artístico e referência de bom cinema no mundo todo(situação que hoje começa a se delinear novamente). Pretendo ressaltar aqui a importância desse gênero, na faculdade me deparo diariamente com autores que que valeram-se desse gênero, desde os mais desconhecidos até Camões_ já que sua concepção de mundo e a forma como ele nos transmite é embebida de sentimentos que fazem parte de sua relação com o mundo e que nós não observários do mesmo jeito- não estou dizendo que a obra de Camões é inventada, apenas que cada um percebe a realidade de uma forma, portanto não seria a escrita como um todo uma ficção. O que dizer da relevãncia de autores ficcionais como Kafka, Voltaire, Jorge Luis Borges. Como seria possível delinear um futuro sem a consideração necessária do gênero marcante dessas obras? Sem entrar no mérito da discussão do que seria uma boa literatura, vemos como crescente a leitura das obras de ficção de Dan Brow, Markus Zusak, Khaled Hosseini e outros. Todos esses autores valem-se da temática de uma ficção que se mescla a realidade, o resultado dessa combinação são milhões de exeplares perdidos. Portanto a ficção tem lugar no mundo pós-moderno, o que ocorre é que a atualidade pede uma nova roupagem desse gênero, assim o gênero será remoldado e não extinto.
Comentário por Isabella Maria de Oliveira Duarte — 15 de abril de 2010 @ 9:51
Uma idéia repisada com argúcia e bom senso, ou seja, se bem feita, por mim tá valendo. O grande perigo do clichê se esconde atrás da repetição sem reflexão. Pensar e repensar um tema que já foi proposto sempre pode ser enriquecedor, há coisas que nos escapam nas primeiras vezes e coisas que podem vir a complexificar e aumentar o calibre do debate. Ser ranzinza muitas vezes pode significar ser crítico, e se for assim, um brinde ao muxoxo!
Comentário por Laurene — 14 de abril de 2010 @ 13:05
Defendo desde sempre que a ficção científica desenvolve, via de regra, o texto metafórico, algumas vezes mais óbvia, outras mais sutilmente. O maior problema dos bons escritores de ficção científica sempre foi a forma, de um modo geral escrevem mal, mas o conteúdo é quase sempre crítico. Não me parece que Invasores de corpos seja um bom exemplo, eu diria que o visionário 1984 do Orwell seria mais adequado neste caso. Crítico, ácido, inteligente e pressago. O cinema sacia os sentidos de diferentes modos, mas há imagens que somente a linguagem literária é capaz de nos proporcionar, imagens estas que são pessoais e intransferíveis, ao contrário das imagens do telão. Cinema e literatura são linguagens diferentes, minha observação não é valorativa, existem momentos na telona que a literatura também não alcança em nossa percepção, simplesmente por serem ferramentas distintas que trabalham em mecanismos extremamente complexos, ou seja, em nós. Ainda sobre a importância e o impacto das idéias difundidas por representantes da indústria cultural como o cinema ou a tv, vale citar a série televisiva Star Trek, que mostrou o primeiro beijo inter-racial na televisão americana, entre o Capitão Kirk e a Tenente Uhura, em 1968! Não se trata apenas de alienígenas versus humanos, basta pensar na reflexão proposta por Inimigo Meu (EUA, 1985) e mais recentemente pelo excelente Distrito 9(Nova Zelândia/África do Sul, 2009). Em relação ao hipertexto presente na obra resenhada, ao humor ácido, a crítica que não é comportada, o sentimento desconfiado de que existe alguma espécie de inversão no livro de Aran, me parece que a chave para desvendar o estranhamento se resume em uma palavra: paródia. Sem mais delongas, pode-se usar a idéia de Giorgio Agamben sobre paródia para pensar o livro de Aran: “duas características canônicas da paródia: a dependência de um modelo preexistente, que de sério é transformado em cômico, e a conservação de elementos formais em que são inseridos conteúdos novos e incongruentes.” E também “O mundo clássico conhecia, porém, outra – e mais antiga – acepção do termo “paródia”, remetendo-o à esfera da técnica musical. Ela indica uma separação entre canto e palavra, entre melos e logos. Na música grega, de fato, originalmente a melodia tinha que corresponder ao ritmo da palavra. Quando, na recitação dos poemas homéricos, tal nexo acaba desfeito e os rapsodos começam a introduzir melodias que são percebidas como discordantes, diz-se que eles cantam para tem oden, contra o canto, (ou ao lado do canto). Aristóteles informa-nos que o primeiro a introduzir nesse sentido a paródia na rapsódia foi Hegemone de Thasos. Sabemos que seu modo de recitar provocava risadas irrefreáveis nos atenienses.” (AGAMBEN, Giorgio. Profanações. Boitempo Editorial: São Paulo, 2007, p. 38/39.) E finalmente, quanto à tautologia “epicurista”, fica a dúvida: Não terá sido proposital dentro do humor inerente à paródia? Se sim, está adequado, na medida em que faz parte da proposta percebida pelo resenhista quando diz que “ali estava se dando uma crítica eloquente contra a sociedade de consumo e a banalidade do mundo artístico contemporâneo.”. Se não é proposital, também está adequado, porque me arrancou boas risadas. Ou seja, pelo sim, pelo não, o texto resenhado parece ser dissonante. No bom sentido. Ou não, como diria Caetano.
Comentário por Laurene — 14 de abril de 2010 @ 12:22
A “ficção científica” presta-se praticamente a qualquer coisa que possa ser imaginada desde os autores mais medíocres aos mais geniais. E isto acaba gerando um grande balaio de gatos onde os incompetentes podem se esconder atrás “um novo universo de idéias e referencias” ou realmente os bons podem pegar este mote e criar algo genuíno. O lance é saber se este algo genuíno ainda é passível de execução. Afinal num mundo ficcional onde tudo pode, tudo já não foi criado e pensado ? Hoje ainda é “original” pintar uma sociedade futurista “totalitária”, seja no sentido político, social, cultural, artístico, religioso, sexual, etc ? Tantas e tantas obras já não foram escritas com estes objetivos? Onde fica o ineditismo? Não se torna um clichê repisar estas mesmas idéias ? Que motivação temos para nos aproximar de uma obra “de denúncia”, ou “de crítica”, ou “de reflexão”, travestida de ficção científica? Não é muito óbvio? Hoje mesmo a ZH comenta o livro “Poeira: Demônios e Maldições” de Nelson de Oliveira, onde retrata-se um Brasil “alternativo” onde a circulação de livros é proibida por decreto presidencial. Onde está a novidade ? Ai, meu saco!! Bem, relendo o que escrevi até agora to me achando bem ranzinza, e certamente isto não é uma resposta. Talvez tenha que ler boas coisas no gênero. Beijo !… Iuri…
Comentário por Admirador anônimo — 14 de abril de 2010 @ 9:18
Resposta aos questionamentos: A ficção científica sempre brindou e continuará brindando seus fãs com as cores fortes da imagem que hoje o cinema dá em 3D sem que ele precise fazer qualquer esforço.
Quanto à crítica social, a meu ver, ela sempre fez isso, com uma capacidade de atualização impressionante, tanto que a metáfora apresentada em “Invasores de Corpos” de Jack Finney, por exemplo, poderia ser traduzida, hoje, por um curto, e apavorante nome: Crack.
Comentário por Maria da Graça Rodrigues — 14 de abril de 2010 @ 8:07